Mês: janeiro 2011
É difícil dizer a verdade quando todos mentem?
Música para camaleões
Eu não me sinto muito à vontade falando de um livro do Capote. Música para Camaleões é um livro de contos, dá pra pensar que é uma coisinha desprentesiosa. Alguns contos falam da infância, outros de encontros e tem uns causos mais parecidos com realismo fantástico. O ritmo da escrita é delicioso. Capote faz qualquer narrativa parecer simples – e quem escreve sabe que isso é o que há de mais difícil. Só o início do Música para Camaleões é capaz de provocar a empatia de qualquer pessoa que possua um sentimento artístico:
Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para ao resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação. (Introdução)
– Você é mulher. Você nunca entenderá o que Jorge Guinle significa.
Durante todo esse tempo o espelho negro ficou pousado no meu colo, e mais uma vez meus olhos sondam suas profundezas. Como é estranho ver aonde nos levam nossas paixões, a persistência futigante com que nos perseguem, impingindo-nos sonhos rejeitados, destinos inoportunos. (Música para camaleões)
Mais Faulkner: Absalão, Absalão!
Caro Charlles,
Joana D´arc de Luc Besson
Devemos nos perguntar se a pornografia roubou nossa sexualidade?
Quando fui para a exposição anual pornô em Las Vegas, entrevistei muitos produtores de pornografia. O que foi surpreendente é o que lhes interessa é o dinheiro. Eles não falam de sexo, falam de dinheiro. Eles falam de correspondência em massa, eles falam de publicidade de massa. O que nós esquecemos quando falamos de pornografia é que estas não são fantasias criadas do nada, que caíram do céu, essas são fantasias criadas dentro de um mercado tipicamente capitalista. O que você vê na pornografia é uma necessidade para manter isso. Agora, o que aconteceu é que quanto mais os homens estão usando a pornografia, eles são cada vez mais entediados e insensíveis com ela, o que significa que eles querem o material mais e mais violento. E a pornografia, porque é o lucro, tem de satisfazer as suas necessidades. O que é interessante é que pornografia é na verdade uma bagunça porque eles não sabem mais o que fazer, os pornógrafos. Eles foram tão graves e tão cruéis quanto eles podiam. Eles fizeram de tudo com os corpos das mulheres, perto de matá-las. Então a questão é, o que eles podem fazer agora para manter um público cada vez mais insensível interessado?
Uma antropologia de distância
Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na força do homem. O divertimento dele era decepar cabeça de saúva. Vivia deitado mas si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dandava pra ganhar vintém. E também espertava quando a família ia tomar banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo todo do banho dando mergulho e as mulheres soltavam gritos gozados por causa dos guaiamuns diz-que habitando a água doce por lá. No mucambo si alguns cunhatã se aproximava dele para fazer festinha, Macunaíma punha a mão nas graças dela, cunhatã se afastava. Nos machos guspia na cara. Porém, respeitava os velhos e frequentava com aplicação a murua a poracê o torê o bacorocô a cucuicogue, todas as danças religiosas da tribo
Rebulir com o sertão, como dono? Mas o sertão era para, aos poucos e poucos, se ir obedecendo a ele; não era para à força se compor. Todos que malmontam no sertão só alcançam de reger em rédea por uns trechos; que sorrateiro sertão vai virando tigre debaixo da sela. Eu sabia, eu via. Eu disse: não-zão! Me desinduzi. Talento meu era só o viável de uma boa pontaria ótima, em arma qualquer. Ninguém nem mal me ouvia, achavam que eu era zureta ou impostor, ou vago em aluado. A conversa dos assuntos para mim importantes amolava o juízo dos outros, cacetava. Eu nunca tinha certeza de coisa nenhuma.