Mês: fevereiro 2011
Sexo trocado
A sangue frio
A casa fora construída em 1948, e projetada em grande parte pelo Sr. Clutter, que se mostrara arquiteto sóbrio e sensato, embora não se destacasse como decorador (….) um imenso sofá moderno na sala de estar, coberto por um tecido encaracolado e entremeado de fios cintilantes de metal prateado; na copa uma banqueta torrada de plástico azul e branco. Este tipo de mobília agradava ao Sr. e a Sra. Clutter, bem como à maioria dos seus conhecidos, cujas casas eram assim decoradas.
Uma laterna, uma faca de pesca, um par de luvas de couro e uma roupa de caça, completa com cartuchos, cada ainda mais atmosfera a essa curiosa natureza morta.
– Vai usar isso aí? – perguntou Perry, indicando a roupa.
Dick deu com os nós no dedo do pará-brisa:
Toc, toc. O senhos nos desculpe. Estavámos caçando e parece que perdemos o caminho. Será que poderíamos usar o seu telefone?…
– Sí, señor. Yo comprendo.
– Vai ser fácil… Prometo a você, meu anjo, vamos espalhar miolo por tudo quanto é parede.
Amor, Bourdieu
Cisne Negro – parte 2
Cisne negro – parte I
Uma companhia de ballet seleciona seus membros pra garantir uma qualidade mínima. Quando mais prestigiosa e quanto mais ela puder oferecer aos seus bailarinos, mais exigente ela pode ser. Existem coisas que toda bailarina profissional deve ter: o físico magérrimo, um alongamento bastante acima da média, uma boa ponta e saber executar os pouco mais de duzentos passos principais que, em conjunto, formam as coreografias de ballet. Mas, mais do que isso, uma companhia de ballet precisa de bailarinos talentosos formam o seu primeiro time, os solistas. Os solistas precisam ser superiores aos outros bailarinos em todos os aspectos. Eles representam a companhia, têm seus nomes reconhecidos e muitas pessoas vão a um espetáculo especialmente para vê-los.
A pessoa que está à frente no palco acaba puxando todas as outras. Se ela erra, os outros também errarão. Estar no lugar mais importante do palco, cara a cara com o público, requer muita segurança. Quem já subiu num palco sabe: pode ser inebriante, pode ser aterrorizante, pode ser as duas coisas juntas. É preciso técnica e algo além da técnica. Dizer a um artista que ele é bastante técnico pode soar como elogio ou xingamento. Porque técnica é algo que tem a ver com esforço, com horas trabalhadas, com bons professores, com a capacidade do corpo em responder o que é exigido dele. Mas não tem, necessariamente, a ver com o talento. Alguém com excelente técnica pode fazer a passagem mais difícil ou mais emocionante e o público bocejará. Existe uma comunicação invisível entre artista e platéia que não depende da quantidade de horas trabalhadas. É algo que faz parte da essência do artista, do que ele é o que consegue transmitir. A única coisa que ele pode fazer pra tentar crescer nesse aspecto é viver, porque para transmitir é preciso ter muito dentro de si.
Por tudo isso, dá pra imaginar o quanto é problemático substituir uma solista. Muita gente boa larga o ballet todos os anos, porque todos querem ser solistas e não existe solo pra todos. Não ser solista significa dançar pelo coletivo, jamais ter as luzes apenas para si. Isso é especialmente cruel no ballet clássico, onde as coreografias mais tradicionais colocam quase todo corpo de baile com roupas iguais e pelos cantos. Existem mais pessoas desejosas do que merecedoras desse destaque. Uma nova solista dá uma nova cara a companhia; é um momento de mudança e, como tal, um momento de crise. E é assim que se inicia Cisne Negro, num momento de crise. A aposentadoria de Beth (Winona Rider) inicia uma crise na companhia, que por sua vez desencadeia uma crise pessoal naquela que foi escolhida para o posto: Nina (Natalie Portman, simplesmente maravilhosa).
Podemos dizer que numa companhia de ballet todo mundo tem um pouco de diretor artístico. Todos se conhecem, fazem aulas juntos e ensaiam diariamente. O público pode ter ilusão de uniformidade, de que cada um no palco é excelente; mas para quem está lá dentro existe uma escala silenciosa. Cada pessoa lá dentro têm seus favoritos, sua própria opinião sobre quem merece estar em que papel. Em outras áreas, é possível conseguir um emprego e enganar as pessoas sobre sua real capacidade durante muito tempo; basta ter um bom currículo e impressionar no processo de seleção. Na dança, todo o processo é feito com base em audições. Não importa de onde você veio, se de uma escola de bairro ou do Bolshoi – quando a música toca e você começa a fazer a coreografia, não há o que esconder. Seus movimentos denunciarão a sua precisão, o seu domínio e a sua interpretação. Para olhos treinados, tudo isso se revela em poucos minutos. Não é apenas Thomas (Vincent Cassel) que sabe que Nina é apenas um Cisne Branco – toda companhia sabe.
Para a nova solista, Thomas escolheu sua melhor opção – mas ser a melhor opção não é sinônimo de ser o ideal. Por fazer parte da companhia há muito tempo, todos sabem o que esperar de Nina: técnica. O ballet exige muita técnica, mas todos eram profissionais; ela certamente não era muito melhor que as outras que participaram da audição. Em outras palavras, Nina não é convincente o suficiente para ser solista. E estar numa posição desejada por todos sem ser claramente merecedor não é confortável pra ninguém. As pessoas ficam insatisfeitas, se sentem injustiçadas e questionam os critérios de escolha. Quando é uma mulher, sempre existe a suspeita de que ela dormiu com o chefe… Surgem os boatos, as especulações, as hostilidades. A credibilidade do diretor artístico é colocada em dúvida e a escolhida sente que a qualquer momento pode perder seu papel. Qualquer atraso num ensaio ou um momento de fraqueza podem colocar tudo a perder. Nina percebe isso e se sente perseguida. Aí começa a surtar. Ela precisa provar para sua própria companhia que merece ser a Rainha Cisne. Essa pressão faz desmoronar o que a levou ao topo e que, ao mesmo tempo, a impede de ser uma artista completa: o controle.
Leia também a Parte II
Amor, Guimarães
Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente – tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos. Conforme, por exemplo, quando eu me lembrava daquelas mãos, do jeito como se encostavam no meu rosto, quando ele cortou o meu cabelo. Sempre. Do demo. Digo? Com que entendimento eu entendia, com que olhos era que eu olhava?
Mundo incompleto
Entre seus iguais, o indivíduo estigmatizado pode utilizar sua desvantagem como base para organizar sua vida, mas para consegui-lo deve se resignar a viver num mundo incompleto. Neste, poderá desenvolver até o último ponto a triste história que relata a possessão do estigma.(p.30)
Enquanto o estranho está à nossa frente, podem surgir evidências de que ele tem um atributo que o torna diferente de outros que se encontram numa categoria em que pudesse ser incluído, sendo, até, de uma espécie menos desejável – num caso extremo, uma pessoa completamente má, perigosa ou fraca. Assim, deixamos de considerá-lo uma pessoa comum e total, reduzindo-a a uma pessoa estragada e diminuída. Tal característica é um estigma, especialmente quando seu efeito de descrédito é muito grande. (pág 12)