Quando isso aconteceu, Orlando deu um suspiro de alívio, acendeu um cigarro e soprou em silêncio um ou dois minutos. Depois, chamou hesitante, como se a pessoa que procurasse pudesse não estar ali “Orlando?” Pois se há (por acaso) setenta e seis campos diferentes, todos pulsando simultâneamente na cabeça, quantas pessoas diferentes não haverá – valha-nos o céu- todas morando, num tempo ou noutro, no espírito humano? Alguns dizem que duas mil e cinquenta e duas. De modo é que é a cois mais natural do mundo uma pessoa chamar, logo que fique sozinha, Orlando? (se esse é seu nome), querendo com isso dizer Vem, Vem! Estou moralmente cansada deste eu. Preciso de outro. Daí as mudanças assombrosas que vemos em nossos amigos. Mas isso também não é muito fácil, pois, embora se possa dizer, como Orlando disse (achando-se no campo, e necessitando de outro eu) Orlando?, o Orlando de que ela necessita não vir; essses eus de que somos constituídos, sobrepostos uns aos outros como pratos empilhados na mão do copeiro, têm suas predileções, simpatias, pequenos códigos e direitos próprios, chamem-se como quiserem (e muitas dessas coisas não tem nome), de modo que um só virá se estiver chovendo, outro, se for num quarto com cortinas verdes, outro, se a Sra Jones não estiver lá, outro, se lhe pudermos prometer um copo de vinho – e assim por diante; pois cada pessoa pode multipilicar a sua própria experiência às diferentes condições que impões os seus diferentes eus- e algumas, de tão ridículas, nem podem ser impressas em letra de forma.
Mês: março 2011
Carmen, Carlos Saura
Intelectual, Foucault
Viramundo
Ao contrário do Charlles, que pegou uma birra assumida e decidiu ignorar a literatura brasileira, há alguns anos venho empreendendo o caminho contrário. Tenho feito um esforço consciente para ler os autores nacionais, e estendo esse esforço aos autores latino-americanos. Porque é a nossa cultura; saber mais da cultura dos outros não muda a nossa nacionalidade. Li muita literatura francesa mas e daí? Certas coisas são acessíveis apenas à eles, assim como muitas coisas são acessíveis apenas à nós. Outra grande vantagem disso é ler sem apelar para traduções. Escrever me fez entender melhor a importância de ler na língua original. Se passo tanto tempo me decidindo entre belo, bonito, agradável ou encantador, é porque cada uma dessas palavras expressa de mais maneira sutil ou mais próxima a idéia original. São detalhes que distinguem os autores, que criam impressões diferentes nas descrições. Existem até estudos que medem o grau de sinonímia das palavras, o que mostra que a substituição sempre perde algo.
Foi por isso, e tão somente por isso, que eu me propus a ler O grande mentecapto. Fernando Sabino, pra mim, era aquele autor do infeliz Zélia, uma paixão. Gostei tanto do Mentecapto que não pude deixar de me perguntar a mesma coisa que todos se perguntaram na época – Por que o Fernando Sabino se sujeitou a isso? Aquilo é tarefa pra um ghost writer qualquer e não um autor de verdade. Nunca li essa resposta, mas eu sei que deve ser um óbvio contas a pagar.
Era uma tarde de sábado, e ele estava deitado debaixo de uma mangueira no quintal de sua casa. Havia silêncio em tudo, pairando sobre as árvores e as coisas ao redor. O sino da igreja tinha acabado de bater. Então Geraldo Viramundo se apoiou nos cotovelos e estendeu o olhar, meio para longe, meio para cima. Centenas de vezes ele tinha estado ali, naquela mesma posição, era uma paisagem conhecida e tão familiar como o seu próprio modo de viver, que nela se completava. Mas naquele mesmo instante uma buzina de um automóvel soou na estrada, um boi mugiu no pasto, uma menininha de vermelho passava correndo lá longe, na ponte, um vento leve começou a sacudir a ramagem das árvores. O momento assim surpreendido parecia conter um significado qualquer que lhe escapava, e a que tudo se subordinava, como as notas de uma música. Geraldo Viramundo se sentiu mais só do que quando mergulhava no rio, mas era uma solidão feita de desamparo e saudades da infância – quando minutos mais tarde, se ergueu à caminhar pela casa, percebeu que não era menino mais.
Decadência
Uma história curta e triste
Progresso
Plástica
Esta seria a explicação das famosas “recuperações” do corpo pela pornografia, pela publicidade?Eu não estou inteiramente de acordo em falar de “recuperação”. É o desenvolvimento estratégico normal de uma luta… Tomemos um exemplo preciso: o do auto-erotismo. Os controles da masturbação praticamente só começaram na Europa durante o séc XVIII. Repentinamente, surge um pânico: os jovens se masturbam. Em nome deste medo foi instaurado sobre o corpo das crianças – através das famílias, mas sem que elas fossem a sua origem – um controle, uma vigilância, uma objetivação da sexualidade, com uma perseguição dos corpos. Mas a sexualidade, tornando-se assim um objeto de preocupação e análise, como alvo de vigilância e de controle, produziria ao mesmo tempo a intensificação dos desejos de cada um por seu próprio corpo…O corpo se tornou aquilo que está em jogo numa luta entre filhos e pais, entre a criança e as instâncias de controle. A revolta do corpo sexual é o contra-efeito dessa ofensiva. Como é que o poder responde? Através de uma exploração econômica (e talvez ideológica) da erotização, desde produtos para bronzear, até filmes pornográficos… Como resposta à revolta do corpo, encontramos um novo investimento, que não tem mais a forma de controle-repressão, mas de controle-estimulação: “Fique nu… mas seja magro, bonito, bronzeado!” A cada movimento de um dos dois adversários corresponde o movimento do outro. Mas também não é a “recuperação” no sentido de que falam os esquerdistas. É preciso aceitar o indefinido da luta… O que não quer dizer que ela não acabará um dia.
Doses de ciência na cura da religião?
(roubei da Tina Lo)