Mês: agosto 2011
Sociabilidade e carros
Entrevista com Bauman
Dois insights sobre a fama
Paternidade voluntária
Mozart – A sociologia de um gênio
Quando você diz que a infância tal como a conhecemos é uma construção social, que crianças já foram vistas como mini-adultos ou qualquer coisa que o valha, receberá amistosos acenos de cabeça em concordância. Experimente então dizer que ser artista é ter uma profissão como outra qualquer, o mesmo que ser policial ou vendedor. Ninguém concordará. Podem dizer que existem artistas e artistas, que o do primeiro grupo até pode ser um simples profissional, mas que o verdadeiro artista, aquele com alma e talento, não é assim. Esse é um tipo de pessoa especial, que sente de maneira diferente e por isso tem algo diferente para transmitir. Elias consegue fazer um livro muito especial ao se debruçar sobre esse tema, a construção que temos em cima da idéia de gênio artístico. E escolhe o hoje incontestável Mozart:
Sua situação era muito peculiar. Embora fosse um subordinado, socialmente dependente dos aristocratas da corte, a clara noção que tinha de seu extraordinário talento musical levava-o a se sentir igual, ou mesmo superior a eles. Era, numa palavra, um “gênio”, um ser humano excepcionalmente dotado, nascido numa sociedade que ainda não conhecia o conceito romântico de gênio, e cujo padrão social não permitia que em seu meio houvesse qualquer lugar legítimo para um artista de gênio altamente individualizado. Pode-se imaginar agora: o que isto significou para Mozart e para seu desenvolvimento em termos humanos? Claro, podemos apenas formular hipóteses; faltam as evidências (embora não inteiramente). Mas basta ter em conta esta estranha situação, de certa maneira única, para chegar à chave vital na compreensão de Mozart. Sem tal reconstrução, sem uma noção da estrutura de sua situação social – um gênio antes da época dos gênios -, nosso acesso a ele fica bloqueado.
Mozart -A sociologia de um gênio/ p.23-24
O resultado disso é um livro interessante, gostoso de ler e ao mesmo tempo inovador. Ele pode tanto ser lido pelos amantes da música como por quem quiser conhecer os alcances de um bom estudo sociológico. Elias não usa de nenhum dado inédito para aqueles que já tiveram a curiosidade de saber sobre a vida de Mozart mais do que o filme Amadeus (que exagera a importância de Salieri e lhe coloca um papel injusto e tardio na história, pelo menos na das mentalidades) ou os pequenos resumos que acompanham CDs. Ao colocar Mozart dentro de seu contexto, e no que era esperado dentro dos vários papéis que ele desempenhava, passamos a ver de outra maneira seu relacionamento com a vida cortesã, o papel que desempenhava seu pai, as tentativas e desilusões de sua carreira como músico. Passamos a ver Mozart como alguém além do seu tempo não apenas por sua música, como também por suas aspirações artísticas.
A beleza nobre
A princesinha andava de um lado para outro do terraço com os companheiros, e brincava de esconde-esconde à roda dos vasos de pedra e das velhas estátuas musgosas. Nos dias comuns, só lhe era permitido brincar com crianças da mesma condição, de modo que brincava sempre sozinha, mas o dia dos seus anos era uma excessão, e o rei dera ordens para que ela convidasse todos os amiguinhos que quisesse para virem divertir-se com ela. Tinham uma graça majestosa ao passar aquelas esguias crianças espanholas, os meninos com os chapéus de grandes plumas e curtos mantos ondulantes, as meninas segurando a cauda dos longos vestidos de brocado, e protegendo os olhos do sol com imensos leques de cores negras e prateadas. Mas era a infanta a mais graciosa de todas, e a que se trajava com maior requinte, segundo a moda um tanto pesada da época.O aniversário da infanta
Todas as tardes saía para o mar o jovem Pescador e atirava a rede à água.Quando o vento soprava de terra, ele não apanhava nada, ou pouca coisa, pois era um vento amargo de asas negras, e ondas eriçadas vinham recebê-lo. Mas quando o vento soprava para a praia, subiam os peixes das profundezas, e nadavam-lhe por entre as malhas das redes, e ele os levava ao mercado e vendia-os.O Pescador e sua Alma
A menos que seja rico, a ninguém adianta ser encantador. O romance é privilégio do abastado, e não ofício do desempregado. O pobre há de ser prático e prosaico. Mais vale ter uma renda permante do que ser fascinante. Tais são as grandes verdades da vida moderna, que Huguie Erskine jamais compreendeu. Podre Huguie! Intelectualmente, cumpre confessá-lo, não tinha grande importância. Nunca disse uma frase brilhante, nem sequer maldosa, em toda existência. Mas era maravilhosamente bem-apessoado, com cabelos anelados e castanhos, o bem-delineado perfil e os olhos cinzentos. Tão popular entre os homens como entre as mulheres, possuía todos os talentos exceto o de saber ganhar dinheiro. Legara-lhe o pai a espada de cavalaria e uma História da Guerra Peninsular em quinze volumes. Huguie colocou a primeira sobre o espelho, a segunda em uma estante, entre o Guia de Ruff e a Bailey´s Magazine, e passou a viver com as duzentas libras anuais que lhe dava uma tia velha. Tentara tudo. Frequentara durante seis meses a Bolsa de Valores; mas que há de fazer uma borboleta entre touros e ursos? Fora comerciante de chá por um pouco mais de tempo, mas logo se cansar de pekoes e souchons. Depois, tentara vender xerez seco. Mas isso também dera em nada: o xerez era seco demais. Afinal de contas, era nada, um rapaz encantador, malsucedido, com um perfil perfeito e nenhuma profissão.O modelo milionário