A feminilidade não está restrita à juventude, aos traços faciais, à cor do cabelo, ao tamanho dos seios, dos quadris ou a qualquer outro tamanho. A visão binária que divide o mundo em masculino e feminino, claro e escuro, reto e redondo, ativo e passivo, público e privado, sempre nos foi muito negativa. Mas a crueldade para com as mulheres que vivemos hoje atingiu um nível muito mais profundo porque nos disseram – e nós acreditamos – que a feminilidade é um atributo físico, que pode ser perdido, que precisa ser comprado. Agora as mulheres correm para transformar seus corpos, assim. E nunca se sentem seguras o suficiente, por mais que invistam, porque na verdade estão procurando no lugar errado.
Mês: novembro 2011
Medicina e ciência
Profissional da ajuda
Há quem brigue comigo quando descobre que sou formada em psicologia e optei por não exercer. É como se eu fosse um padre que abandonou a batina. Comparar meu abandono da psicologia com um sacerdócio faz sentido porque as pessoas que costumam brigar comigo, coincidência ou não, são ligadas a crenças religiosas ou místicas. Para elas, a psicologia é uma grande oportunidade de ajudar o próximo, um karma grande e nobre a ser queimado, e deixar isso de lado é esquecer do propósito mais alto que deveria reger minha vida.
Estava tendo a última conversa com aquele espírita, que seria a última justamente por ele não aceitar minha posição. Ele estava tentando me convencer a ser psicóloga. Eu aleguei falta de vontade, de vocação, descrença e todos os meus motivos. Muitos argumentos depois, ele então aceitou que eu não quisesse viver disso – mas então que eu fosse psicóloga num serviço voluntário, meia hora que fosse, uma vez por semana? Tive que concordar que isso era razoável (nós nos conhecemos justamente num serviço voluntário). Aí eu lhe apontei a questão legal, que eu não tenho e nunca tive CRP (registro no conselho profissional), e que seria ilegal me apresentar como psicóloga. Aí ele me disse que se eu me oferecesse a uma instituição, e pedisse a essa instituição me pagar apenas o correspondente a esse valor do CRP, para ir lá conversar, que seja, meia hora por semana com um menor de rua. Aí eu levantei a questão:
– Não tenho nada contra fazer esse serviço voluntário, mas porque eu precisaria me apresentar como psicóloga pra isso? Não bastaria eu chegar lá, eu mesma, com o conhecimento que tenho e conversar com o menino? Por que eu teria que fazer isso me apresentando como psicóloga, de crachá e de guarda-pó? Faz tanta diferença assim?
Pra ele fazia. Ele não soube explicar o porquê, mas continuou insistindo que eu deveria ir como psicóloga. Eu acho que o que ele mesmo não soube explicar é o poder do guarda-pó, do diploma, das instituições. Ele acreditava que tudo isso daria um peso às minhas palavras que normalmente elas não teriam. Talvez fosse muito mais isso do que eu, como pessoa, que pudesse ajudar o tal menino. Pessoalmente, discordo dessa posição. Acho que temos nos iludido demais com diplomas, com capacitações, com currículos. Isso é confundir forma com conteúdo, é confiar mais no certificado do que na coisa em si.
Fé
A fé costuma ser vista como privilégio – ou prova de falta de racionalidade – apenas daqueles que são religiosos. A fé pode ser definida como uma confiança em algo que não pode ser comprovado. Há uma frase atribuída a Santo Anselmo, o fundador da escolástica, que diz “não procuro entender para crer, mas creio para entender”. Em outras versões, a frase seria mais forte: “creio porque é absurdo”. A fé estaria, antes de tudo, baseada num sentimento subjetivo, como uma certeza. Apesar das tentativas de unir fé e razão, empreendidas por escolásticos e religiosos de todos os credos, ambas não costumam coincidir como métodos de análise. Por isso entendemos que existem aqueles que se baseiam na fé, e esses seriam os religiosos. Aqueles que buscam maneiras racionais de lidar com o mundo estariam mais próximos do racional e científico.
De acordo com Giddens, a fé é uma característica de todos nós numa sociedade moderna avançada; e tende a se tornar cada vez mais necessária. Com o aumento da divisão do trabalho e da tecnologia, ambos se tornam cada vez mais complexos. A partir de um ponto, torna-se impossível que cada membro da sociedade a conheça. Cada um pertence a um nicho de trabalho e tem uma cultura de certa forma autônoma. Não é possível trocar as pessoas de função, ou que um grupo conheça a cultura de outro. Numa sociedade agrícola, por exemplo, todos saberiam lidar com a terra. Nenhuma função ou atitude seria completamente desconhecida para os seus membros. Isso já não nos é mais possível. Ignoramos a maneira como quase tudo funciona à nossa volta. Sabemos colocar gasolina nos carros, mas não sabemos consertar um; usamos uma quantidade enorme de aparelhos eletrônicos sem fazer a menor idéia de como são feitos. Ignoramos até mesmo o trajeto burocrático dos papéis que nos pedem. Nas sociedades modernas, cada qual sabe realizar a tarefa que lhe cabe. Para o resto, temos que confiar – que o mecanismo desconhecido funcione bem, que as pessoas encarregadas realizem bem o seu trabalho. A essas pessoas Giddens chama de peritos.
O homem atual continua sendo um homem de fé, mas não de uma fé sobrenatural. É uma fé baseada num sistema de peritos. É uma fé nascida da necessidade de se mover dentro de um mundo complexo. Quando os peritos falham – carros com problemas mecânicos, médicos que perdem pacientes na mesa de operação, aviões que caem – , eles geram um sentimento generalizado de mal estar. No fundo, todos sabemos que eles são falíveis, mas preferimos não lembrar. Disso depende a nossa paz de espírito, porque não é possível desconfiar a cada passo. A fé moderna deixa a racionalidade de lado para sobreviver.
Algo está muito errado. Ou muito certo.
Cu
Ouvi muitas histórias interessantes dos meus ex-professores antropólogos, e é uma pena que eu tenha guardado apenas a essência delas, sem nunca lembrar de que tribo. Então sou obrigada a dizer “em alguma cultura indígena brasileira…” Essa história do cu é mais uma que acontece em alguma cultura indígena brasileira. Uma das minhas professoras contou que os índios que ela estudou comiam o cu uns dos outros. Não, eles não eram gays, alguns comiam o cu dos amigos. Eram índios comuns, com todas as atribuições masculinas dos outros índios. Só que eles faziam isso às vezes, não me perguntem o porquê. Suas esposas sabiam e isso dava algumas brigas. O que há de diferente e inexplicável nessa história é que a sua masculinidade não era colocada em questão por causa disso. Era uma coisa normal, uma particularidade que não afetava o resto da existência.
Libido
Para Freud, toda libido é sexual. Esse ponto da sua teoria foi contestado por uns discípulos e aceito por outros. Na psicanálise de raiz, o sentimento de prazer estético, o amor platônico, o interesse intelectual e qualquer outra forma de prazer que não envolve sexo seria apenas o desvio dessa libido. O mesmo desvio que nos permitiu a civilização. Por modificar a libido, tiramos o prazer derivado da manipulação dos nossos corpos e dos corpos dos outros, atrasamos a satisfação dos sentidos, aprendemos a sentir prazer sem sexo. Às vezes tão sem sexo – que estaria somente muito bem reprimido – que nem parece que um dia houve sexo ali, e a própria idéia de que lá existe sexo nos parece ofensiva. Quanto mais repressão, mais civilização.
Marcuse pegou a questão da libido freudiana e procurou atualizar o raciocínio. A questão de ser ou não sexual em sua origem é de uma importância menor. O desvio da libido e o atraso da sua satisfação teria atingido, nas sociedades capitalistas modernas, um grau imprevisto. Teríamos reprimido tanto a libido que ela nunca encontra satisfação. A libido, quando reprimida até certo ponto, causa prazer. A tensão a ser liberada se torna maior, e por consequencia a sensação de alívio também. Só que se a tensão nunca é relaxada, ela se torna algo doloroso. A lógica de mercado, com sua disputa e competição infinitas, teria contaminado nossa forma de ser. O resultado disso é uma incapacidade de diminuir a tensão e de libertar a libido. Restringimos o erótico ao sexo, enquanto prazer é muito mais do que isso. Reduzir o prazer sensual (ou físico, ou erótico) a sexo nos tornaria cada vez mais incapazes de vivenciá-lo na forma de beleza, arte, convívio. A mais-repressão teria nos transformado em máquinas que nunca desligam.
Tenho uma teoria pessoal que diz a base de problemas de obesidade mórbida, sexo compulsivo, visão distorcida do próprio corpo, dentre outros, estão nesse fenômeno que Marcuse aponta. A raiz desses males, pra mim, é a incapacidade de ter no seu corpo uma fonte ampla de prazer. Quem me ensinou isso foi a dança e – por que não? – algumas aulas de academia. Existe um conhecimento dentro da pele que não pode ser transmitido em palavras. Um conhecimento rico e amplo, que abre nossa visão, que nos coloca no mundo de maneira que o conhecimento puramente filosófico não é capaz. Esse conhecimento físico só pode ser vivenciado e cultivado de maneiras igualmente físicas. Para os de fora, pode no máximo ser assistido, constatado ou admirado. A incapacidade de colocá-lo por escrito tem feito com que os que se dedicam a ele sejam simplesmente visto como burros. À exceção de algumas profissões – geralmente mal remuneradas – conhecer o próprio corpo é apenas um acessório. A falta de uma cultura letrada é considerada uma vergonha, enquanto a falta de inteligência corporal é apenas uma característica.
Carne fresca
Elias, no final do século XX, já previa que tenderíamos a nos tornar cada dia mais vegetarianos. Ele não previa com isso os argumentos de preocupação com o meio ambiente ou o discurso de amor aos animais. Se levarmos em conta o que sua teoria, tais explicações são racionalizações, explicações posteriores de um processo muito profundo que tem sofrido nossa mentalidade ao longo dos séculos – a alteração dos padrões de boas maneiras e da noção de nojo.
As boas maneiras são contrárias ao contato. Ser civilizado é sinônimo de ser mais controlado e distante. Isso se reflete na maneira como lidamos com as pessoas, com momentos específicos para tocar, sempre em partes do corpo pré-determinadas e da maneira mais desapaixonada possível. O objetivo é que o toque não pareça um toque. Basta pensar no incômodo que causa quem leva os beijinhos de cumprimento à sério, e beija de verdade a ponto de deixar o rosto do outro marcado com saliva. A vontade imediata é limpar o rosto, gesto que contemos também em nome da educação. O contato com o que há de mais corporal é considerado vergonhoso. Não queremos e não podemos entrar em contato com fluidos, excrementos e cheiros de pessoas com quem não temos intimidade. Mesmo com aquelas que temos intimidade, esperamos que elas não nos forcem a ter contato e ver tudo. Temos para com algumas funções corporais uma mistura de nojo, pudor e vergonha. O espaço onde cada um elimina de si essas características é o banheiro, o mais privativo dos lugares.
Na comida também evitamos o contato. Cada prato é o domínio intransferível da comida de cada um, regra que só pode ser quebrada entre os que são muito íntimos. Os talheres individuais servem de mediadores entre a comida e a boca, e os talheres de comida servem de mediadores entre a comida da mesa e do prato. Mastigamos silenciosamente e de boca fechada para que os outros não participem involuntariamente do nosso gesto de comer. A comida que comemos à mesa nada tem a ver com a que foi colhida ou abatida. Ela já chega ao consumidor pré-lavada, cortada em cubos, embalada, em bandejas. A nossa complexa vida social gerou uma divisão de trabalho tão intensa que muitos de nós jamais verão pessoalmente um animal de corte, muito menos o seu abate. Não gostamos de vincular morte à comida nem no que dizemos a mesa, quanto mais ao que comemos. Escondemos dos nossos olhos todo o processo pela qual a carne passa, e isso faz com que ela se desvincule do sangue e morte que lhe é inerente.
Sabemos que certos alimentos têm origem animal, mas é quase algo teórico. Não vemos e não queremos saber. Queremos que certas coisas permaneçam abstratas, porque não conseguimos mais lidar com os processos que transformam um porco numa linguiça. Que sejam feitos por outras pessoas, longe de nossos olhos e consciências. Por isso muitos optam pelo caminho do vegetarianismo.