Como gosto de ler e gostei da série Sex and the City, meu irmão me deu o livro de presente de aniversário. Antes da página 20, já estava à procura da etiqueta de troca. Na série elas estão sempre cercadas de marcas e lugares badalados, mas no livro a ênfase é diferente. Elas são essas marcas e lugares. No livro tudo gira em torno de locais e status. Para a autora, Nova York gerou mulheres tão ricas, independentes e consumistas, que elas estão condenadas a serem solteiras. Até aí vá lá. O que me irritou é a glamurização da vida cercada de drogas, dinheiro e sexo casual.
Depois do chá-de-panela, e depois de dar um telefonema ao novo namorado, Mr. Big, Carrie foi ao Bowery Bar. Samantha Jones, a produtora de filmes quarentona, estava lá. A melhor amiga de Carrie. Às vezes.
Como não tinha etiqueta de troca (meu irmão tem essa péssima mania), continuei lendo. Aí vi que não era nada disso, o livro traça um retrato sincero do estilo de vida dessas pessoas. E sabemos que a sinceridade é a coisa mais cruel que existe.
– Já estamos de saída – disse Samantha – Vamos precisar encontrar um novo programa.
E encontraram. O Baby Dolls Lounge. Boate de strip-tease em TriBeCa. Não houve jeito de fazer Barkley sair do pé de Samantha, portanto o deixaram ir junto. Além disso, ele tinha maconha. Fumaram no taxi, e quando saíram no Baby Doll Lounge, Sam agarrou o braço de Carrie (Sam quase nunca fazia isso) e disse:
– Eu realmente quero saber como vai seu romance com Mr. Big. Não sei se ele é o homem certo para você.
Carrie precisou pensar se queria responder ou não, porque sempre pintava esse clima entre ela e Sam. Logo quando ela estava feliz com um homem, Sam vinha com essas dúvidas como se enfiasse um pé-de-cabra entre dois pedaços de madeira. Ela disse:
– Sei lá, acho que sou louca por ele.
Sam replicou:– Mas ele realmente te valoriza? Sabe o valor que eu sei que você tem?
Carrie pensou: “Algum dia a Sam e eu vamos dormir com o mesmo homem, as duas juntas, mas não hoje”.
Sim, as personagens são bem diferentes no livro. O livro é uma mistura de histórias e pessoas, não está centrado na figura das quatro amigas. Na série misturaram profissões, reuniram histórias, retiraram o excesso de drogas. Pasmem, até mesmo o sexo – casual, bissexual, grupal, e várias coisas pra qual nem existem termos – foi retirado. Ou seja, as amigas que amamos e nos identificamos não tem nada a ver com as personagens do livro.
-Somos todos umas porras de uns gênios – disse Carrie. E seguiu para o banheiro. Foi preciso passar por uma minúscula fresta entre dois palcos e depois descer um lance de escadas. O banheiro tinha uma porta de madeira cinza que não fechava direito e azulejos quebrados. Ela pensou em Greenwich. Casamento. Filhos.
Ainda não estou pronta, pensou.
Subiu as escadas, tirou as roupas, subiu no palco e começou a dançar. Samantha a olhava fixamente, rindo, mas quando a garçonete se aproximou e educadamente lhe disse para descer, Sam havia parado de rir.
As personagens tem um certo ar de auto-destruição. Eu, que sempre fui responsável até demais, não tenho empatia por elas. Em meio a tudo isso, Mr. Big parece ser o mais sensato. O que explica o porquê de sua relação com a Carrie não engrenar nunca.
No dia seguinte, Mr. Big ligou às 8 horas. Ia jogar golfe. Parecia tenso.
– A que horas você chegou em casa? – perguntou ele – Aonde você foi?– Não cheguei muito tarde. – disse ela – Fui ao Bowery. Depois a um outro lugar. O Baby Doll Lounge.
– Ah, é? Fez alguma coisa diferente por lá?– Não, acho que não – disse Carrie, fazendo aquela vozinha infantil que usava quando queria amansá-lo. – E você?
– Recebi um telefonema hoje de manhã – disse ele – Alguém me disse que te viram dançando sem blusa no Baby Doll Lounge.
– Ah, foi? – disse ela – Como sabiam que era eu?
– Sabiam.
– Está zangado?
– Por que não me disse? – indagou ele.
– Está zangado?– Estou zangado por não ter me contado. Como é que pode não ser sincera com alguém que esteja namorando?
– Mas como é que eu sei se posso confiar em você? – indagou ela.
– Acredite, eu sou o único cara em quem pode confiar.
E desligou.
(pág 118 – 120)
Publicado inicialmente no Caminhante Diurno/ junho 2009


