Mês: março 2012
Ássia
Eu tinha na época uns vinte e cinco anos – começou N. N. -como o senhor vê, são coisas de um tempo que já vai longe. Acabara de ganhar minha liberdade, parti para o estrangeiro, e não para “concluir minha educação” como se dizia, mas simplesmente por vontade de ver esse mundo de Deus. Era jovem, saudável, alegre, dinheiro não me faltava, as preocupações ainda não haviam conseguido me agarrar – vivia a Deus dará, fazia o que bem queria, em suma, florescia. Nem me passava pela cabeça, então, que o homem não é uma planta e não floresce todo ano. A juventude come pães doces e dourados, pensando que é esse o pão de cada dia; no entanto, chega a hora em que se faz qualquer coisa até mesmo por um pãozinho comum. Mas isso não vem ao caso.
p.5
Todos os lugares onde vi o nome de Turguêniev – autor de Ássia – citado, era com desdém, para dizer que ele é muito menos importante e interessante que Dostoiévski e Tolstói, as outras duas pontas da tríade dos grandes autores russos do séc XIX. Só me animei a ler Ássia porque era um livro fino e editado pela Cosac&Naify, o que o torna parte do movimento de resgatar autores russos e traduzí-los direto da sua língua, ao invés da tradução da tradução européia.
A história é uma das mais desinteressantes que já li, de um romantismo que não convenceria qualquer adolescente de hoje. Mesmo assim, o livro consegue encantar, tal a leveza e a correção com que foi escrito. Mesmo sem dizer nada demais, nos identificamos com os devaneios, a amizade e o ritmo. Ao invés de uma grande história de amor, é possível lê-la como um amor de verão – aí sim fica convincente.
Algumas coisas chamam atenção no livro, pela estranheza: a análise de um caráter pela educação; a descrição da própria Ássia, que parece demonstrar um tipo de feminilidade que hoje não atrai; a noção de proximidade e moral. Quando cheguei no capítulo definitivo do livro, onde a ação fundamental acontece, precisei lê-lo umas três vezes. Por instantes, pensei que se tratava de uma reviravolta, que o narrador/personagem principal havia nos iludido desde o começo da história, ocultando um plano prévio, o que seria uma reviravolta brilhante (e impensavel pra época). Mas era apenas uma forma de se relacionar mais antiga e cheia de tabus. Me lembrei de um livro que li na adolescência, oferecido pela minha mãe, e que falava de uma adolescente em crescimento. Num determinado momento ela começa a flertar com um rapaz. Depois desse flerte, ela fica com a consciência pesada, fala muito nisso, consulta um padre e é alertada da responsabilidade, que não se deve sair flertando por aí. Fui perguntar a minha mãe o que afinal era aquilo, flertar. “Ah, toda essa onda só porque ela ficou olhando? O que tem isso demais?”. Ássia é mais ou menos assim.
Amor aos animais
Eu tinha uma amiga que se achava uma pessoa com grande sensibilidade e amor pelos animais. Do tipo que tem a casa cheia de gatos e cachorros. Aí ela foi pra Índia passar um tempo com uma família indiana. Quando ela voltou, me disse que descobriu que ela não era nada daquilo. Ela não amava os animais – o que ela amava eram gatos e cachorros. Os indianos sim que amavam os animais. Sua anfitriã indiana não podia ver uma galinha, uma cabra, um besouro, qualquer criatura, sem ter vontade de abraçar e achar lindo.
Amor aos animais indica superioridade moral? Não sei. Tal como minha amiga depois da viagem, não consigo achar que amar gato e cachorro mereça o nome de amor aos animais. Enquanto alguns merecerem amor e outros puderem morrer, vejo tudo como parte da mesma construção social.
Complexo de Portnoy
Numa excursão do nosso grupo familiar, certa vez descarocei uma maçã, para espanto meu (e com auxílio da minha obsessão) verifiquei com o que ela se parecia, e corri para o mato para cair em cima do orifício da fruta, imaginando que o frio e farinhento buraco ficava entre as pernas daquele ser fictício que sempre me chamava de Garotão quando implorava por aquilo que nenhuma outra garota em toda história conhecida jamais tivera. “Oh, empurre isso para dentro de mim, Garotão”, gritava a maçã descaroçada que eu castigava como um bobo naquele piquenique. “Garotão, Garotão, me dá tudo o que você tem”, suplicava a garrafa de leite vazia que eu guardava escondida no nosso depósito no porão, a fim de nela penetrar, desvairado, com a minha envaselinada verga. “Goza, goza, Garotão, goza”, berrava o furioso pedaço de fígado que, na minha loucura, comprei uma tarde num açougueiro e, acreditem ou não, violei, atrás de um suporte de cartazes a caminho de uma lição de bar mitzvah.p.19-20
Molho e Anna Kariênina
– Está bom. Mas ficaria melhor com molho.
Olhares confusos e envergonhados. O anfitrião se dá ao trabalho de esclarecer:
– Veja bem, é um macarrão alho e óleo. Ele é assim mesmo, não tem molho.
Meu irmão se manteve firme:
– Eu sei que alho e óleo não tem molho. Mas mesmo assim ficaria melhor com molho. De tomate. E carne moída.
Depois de me contar essa história, ele acrescentou – “nunca mais fui convidado pra comer macarrão alho e óleo depois disso”.
***
Meu problema com Anna Kariênina é parecido. O livro é excelente. As primeiras cem, duzentas páginas, são pra ler sem parar. O livro já começa com tudo, com situações envolventes, e os personagens nos são apresentados já no meio de conflitos. As descrições são primorosas e envolventes. Como esta, de
Stiepan Arcáditch não escolhia nem as tendências nem as opiniões, eram antes as tendências e as opiniões que vinham a ele, assim como não escolhia o modelo do chapéu ou da sobrecasaca, mas adotava o que os outros vestiam. E, para ele, que vivia num ambiente social em que a necessidade de alguma atividade intelectual se desenvolvia, de hábito, na idade madura, ter opiniões era tão indispensável quanto ter chapéu.
isto para falar dos personagens. Quando descreve situações, Tolstói também consegue ser muito feliz. Descrições como o trabalho no campo ou uma cena de casamento, que normalmente fariam o leitor pular as páginas ou se perguntar quando aquilo termina, conseguem ser interessantes. É um livro que você lê com o prazer de acompanhar vidas e não na ansiedade de terminar a história. Quando convém, Tolstói resume tudo numa frase e sabemos que o tempo passou. É um escritor com total domínio da sua obra, em nenhum instante a história parece lhe fugir às mãos.
Minha queixa é de algo que eu sei que Tolstói trabalhou duramente para conseguir, e que parece agradar à maioria dos seus leitores: a imparcialidade do narrador. Os personagens são apresentados conforme as situações e pela maneira como os outros os vêem. O autor jamais mostra preferência por alguém, ou emite um juízo de valor sobre o que qualquer um deles está fazendo. Nem ao menos obtemos pistas, seja pelo espaço que ocupa nas descrições ou por ironias. Essa imparcialidade me exaspera um pouco. Talvez eu queira molho onde é sem molho. Minha sensação é a mesma de ir ao cinema sozinha e depois não ter com quem comentar. Senti falta da narração ser um pouco mais próxima, de Tolstói dizer em algum momento que Vrónski é um vaidoso e Liéven um bom sujeito. Só isso, não precisa mais. Porque eles são, o autor mostra que são. Custaria tanto reconhecer?
Hoje, assim como em qualquer outro dia
Propaganda e uma desilusão
Não lembro se recebi por e-mail ou comentei na época que essa publicidade saiu:
– Mas funciona. Poucas mulheres deixariam de abrir as pernas depois de ganhar uma jóia.
Tive que ficar quieta e reconhecer que é verdade. Podemos dizer que não é pela jóia em si e sim pelo que o gesto de comprar algo tão caro significa… Ou podemos achar que é pela jóia sim, como uma troca. Isso torna a mulher uma vagabunda? O que abrir as pernas porque ganhou uma jóia revela?
Revela que na relação entre os sexos, há muito, a mulher entra com o seu corpo, a sua juventude e a sua aparência, e o homem entra com o poder e o dinheiro. Os homens acusam as mulheres de serem interesseiras e as mulheres acusam os homens de só pensarem em sexo. Os dois têm seus motivos, são as maneiras mais tradicionais de se atuar. Maneiras que hoje as feministas criticam, apesar da resistência de outras mulheres. Talvez não estejamos todas lutando ao lado do feminismo porque, quando se abandonam as armas da sedução, talvez não haja tanta coisa nos esperando.
O que eu posso dizer em favor do feminismo: vejo mais mulheres dispostas a agir de outras formas do que homens dispostos a abrir mão da beleza e juventude feminina.


