Ao contrário do Charlles, que pegou uma birra assumida e decidiu ignorar a literatura brasileira, há alguns anos venho empreendendo o caminho contrário. Tenho feito um esforço consciente para ler os autores nacionais, e estendo esse esforço aos autores latino-americanos. Porque é a nossa cultura; saber mais da cultura dos outros não muda a nossa nacionalidade. Li muita literatura francesa mas e daí? Certas coisas são acessíveis apenas à eles, assim como muitas coisas são acessíveis apenas à nós. Outra grande vantagem disso é ler sem apelar para traduções. Escrever me fez entender melhor a importância de ler na língua original. Se passo tanto tempo me decidindo entre belo, bonito, agradável ou encantador, é porque cada uma dessas palavras expressa de mais maneira sutil ou mais próxima a idéia original. São detalhes que distinguem os autores, que criam impressões diferentes nas descrições. Existem até estudos que medem o grau de sinonímia das palavras, o que mostra que a substituição sempre perde algo.
Foi por isso, e tão somente por isso, que eu me propus a ler O grande mentecapto. Fernando Sabino, pra mim, era aquele autor do infeliz Zélia, uma paixão. Gostei tanto do Mentecapto que não pude deixar de me perguntar a mesma coisa que todos se perguntaram na época – Por que o Fernando Sabino se sujeitou a isso? Aquilo é tarefa pra um ghost writer qualquer e não um autor de verdade. Nunca li essa resposta, mas eu sei que deve ser um óbvio contas a pagar.
Era uma tarde de sábado, e ele estava deitado debaixo de uma mangueira no quintal de sua casa. Havia silêncio em tudo, pairando sobre as árvores e as coisas ao redor. O sino da igreja tinha acabado de bater. Então Geraldo Viramundo se apoiou nos cotovelos e estendeu o olhar, meio para longe, meio para cima. Centenas de vezes ele tinha estado ali, naquela mesma posição, era uma paisagem conhecida e tão familiar como o seu próprio modo de viver, que nela se completava. Mas naquele mesmo instante uma buzina de um automóvel soou na estrada, um boi mugiu no pasto, uma menininha de vermelho passava correndo lá longe, na ponte, um vento leve começou a sacudir a ramagem das árvores. O momento assim surpreendido parecia conter um significado qualquer que lhe escapava, e a que tudo se subordinava, como as notas de uma música. Geraldo Viramundo se sentiu mais só do que quando mergulhava no rio, mas era uma solidão feita de desamparo e saudades da infância – quando minutos mais tarde, se ergueu à caminhar pela casa, percebeu que não era menino mais.