Nietzsche, por Viviane Mosé

O que eu sabia a respeito de Nietzsche, antes desse vídeo, era o que um professor meu havia dito numa aula: “Nietzsche foi um cara que quando todo mundo aplaudia a modernidade nascente, disse que aquilo não ia prestar. Mesma coisa que nasce um bebê lindinho e enquanto está todo mundo em volta, a pessoa diz ‘isso daí? Olha a cara dele, vai ser marginal, vai ser um Hitler’ “

A paixão com que Viviane Mosé fala da filosofia de Nietzsche, torna extremamente interessante esta palestra. O uso frio e estrito da razão, mas sem paixão ou sentimentos, deixa a vida amorfa, incompleta e sem sentido.
Então, estas coisas devem se combinar e também interferir uma na outra, com os riscos inerentes, não? (Alexandre Constantino, pelo Facebook)

O castelo dos destinos cruzados, de Italo Calvino

O tarô, aquele jogo de cartas comumente usado para ler a sorte ou o destino das pessoas é, por si só, bastante interessante. Ele é dividido em Arcanos Maiores e Arcanos Menores. Os Arcanos Menores possuem os mesmos quatro naipes do baralho que se usa normalmente, com o acréscimo do Cavaleiro (ou seja, cada naipe tem Valete e Cavaleiro). Os Arcanos Maiores são vinte e duas cartas, que são numerados do um (O Mago) ao vinte e um (O Mundo), mais a carta do Louco que não tem número. O tarô mais antigo e mais conhecido é o de Marselha, mas há tarôs de tudo o que se possa imaginar: de anjos, de ciganos, de bruxas, de celtas, de desenhistas ou místicos famosos, como o caso do tarô de Crownley (aquele que aparece na capa de Sgt Peppers), etc. A leitura do tarô é uma narrativa, onde cabe àquele que lê as cartas juntar o significado daquelas que o consulente tirou (ou que apareceram para ele) e ser capaz de montar uma história coerente.

Assim sendo, acho muito interessante que Italo Calvino tenha se proposto a fazer um livro inteiro como se fosse a leitura de tarô. Seu argumento começa com um jantar, onde as figuras estão presentes e por uma estranha magia não conseguem falar. A única maneira dos comensais contarem suas histórias é pegar as cartas e com elas tentar remontar o que lhes aconteceu. Quem faz leitura de tarô entende que cada naipe, cada arcano e cada carta possui um significado tradicional, que tem a ver com o desenho das figuras mas que também as ultrapassa. Calvino deixa essa tradição de lado e tenta se deixa levar livremente pela impressão que cada carta lhe causa no momento: na Força, ele vê a violência de um homem batendo num leão com uma clava; no dez de paus, pensa numa densa floresta.

A figura do Rei de Espadas, que tentava transmitir num único retrato seu passado belicoso e seu melancólico presente, foi por ele aproximada da margem esquerda do quadrado, na altura do Dez de Espadas. E de repente nossos olhos foram como que cegados pela nuvem de pó das batalhas, ouvimos o som das trompas, já as lançam voam aos pedaços, já nos beiços dos cavalos que se atropelavam se confundiam as babas iridescentes, já as espadas ora de corte ora de lâmina batiam ora sobre o corte ora sobre a lâmina de outras espadas, e onde um círculo de inimigos vivos saltava sobre as selas e ao apeares já não encontravam os cavalos mas a tumba, lá no meio desse círculo estava o paladino Rolando que revolteava nos ares a sua Durindana. Nós o reconhecemos, era bem ele que nos contava a sua história, feita de tormentos e tormentas, comprimindo o pesado dedo de ferro sobre cada carta.

p.47-48

Mas o tarô, que se mostrou um desafio e um começo tão interessante, que acaba atrapalhando a fluidez do livro. Conheço muitos fãs de Calvino (eu entre eles) e pessoas que leem tarô, e em nenhum dos dois grupos esse livro é marcante. Primeiro, porque a necessidade constante de citar cartas que não estão presentes é cansativo. Calvino não diz em qual dos mundos tarôs ele se baseou para escrever o livro, só sei que não foi o de Marselha ou os mais conhecidos. Então a impressão pessoal que aquele tarô específico lhe causou pode não ser a mesma que outros causam. Ele se atém em detalhes de vestimentas, em objetos que as figuras seguram, na forma como as coisas estão dispostas, e em cada tarô isso está de uma forma diferente. E mesmo para aqueles que conhecem o tarô profundamente, ter que ficar puxando pela memória a figura de cada carta é cansativo. Acredito que todas as edições desse livro tenham a reprodução das cartas ao lado das histórias, mas mesmo assim não é suficiente.

Outro problema é que ele mesmo não consegue ser tão original, e tem tendência a usar sempre as mesmas cartas e dar a elas quase sempre as mesmas leituras – A Força é sempre violência, os Cavaleiros são sempre cavaleiros, as espadas remetem à batalhas. Aí, uma leitura que era para ser totalmente nova e original, se torna tão presa e repetitiva como uma leitura de cartas tradicional… Depois de algum tempo, as histórias se tornam mais do mesmo. Talvez o livro funcionasse melhor se as tivesse em menor número, ou se certas cartas fossem vistas de maneira mais simbólica, ou que simplesmente o argumento inicial fosse abandonado. Não sei dizer. Só sei que, pela primeira vez, um livro de Italo Calvino pareceu não funcionar pra mim.

Depressão, o segredo que compartilhamos

Essa é a melhor discussão sobre depressão que eu já vi, numa palestra dada por quem sofre com ela e se dispôs a estudar o assunto. São questionamentos que vão desde como é reconhecer a depressão, conviver com remédios, a busca pela melhor terapia, até as implicações sociais, como o difícil diagnóstico naqueles que já vivem em condições precárias de vida.

 

Coisas frágeis, de Neil Gaiman

Fico dividida em escrever sobre Coisas frágeis. Peguei por causa do autor, que dispensa apresentações quando o assunto é HQ. Uma amiga havia me enviado a versão dele do conto da Bela Adormecida, que é tão terrível quanto definitiva, a melhor versão que eu já li. Então, a minha expectativa era alta ao pegar esse livro. São, como definiu o próprio autor, uma reunião de contos bastante diferentes. Mudam a forma de narrar, os personagens e os temas.

Ela tem o sonho de novo naquela noite.

No sonho, ela está de pé, com seus irmãos e sua irmã, à margem do campo de batalha. É verão, e a grama tem um tom peculiarmente viçoso de verdade: um verde saudável, como um campo de críquete ou a encosta convidativa dos South Downs, para o norte, vindo do litoral. Há cadáveres na grama. Nenhum deles é humano: ela pode ver um centauro, com a garganta cortada, no chão, ali perto. A metade cavalo é de um castanho vivo. Sua pele humana está torrada pelo sol. Ela olha fixamente para o pênis do cavalo, pensando nos centauros se acasalando, e imagina um beijo daquele rosto barbado. Seus olhos correm para a garganta cortada e a poça vermelho-escura ao redor, e ela sente um calafrio.

Moscas voam em volta dos corpos.

As flores silvestres misturam-se à grama. Desabrocharam de ontem pela primeira vez em… quanto tempo? Cem anos? Mil? Cem mil? Ela não sabe.

Tudo isto era neve, ela pensa, olhando para o campo de batalha.

Ontem, tudo isso era neve. Sempre inverno e nunca Natal.

O problema de Susan, p.96

Como dizer? Por ser um autor bastante badalado numa área que não é propriamente a dele, dizer que o livro é ruim parece ser o prazer de ser do contra, de fustigar os fãs e demonstrar uma certa mágoa do espaço e publicidade pelo nome famoso. É dizer: se fosse desconhecido, quem sabe nem fosse publicado, e se publicado, certamente não seria um sucesso. Não serei radical a ponto de dizer que o livro é ruim, porque não é. Ao mesmo tempo, realmente não consigo compartilhar do entusiasmo dos fãs. As histórias são imaginativas, bastante visuais, com uma dose de fantasia meio terror, omissões e interrupções bruscas que deixam as conclusões no ar. Mas pra qualquer um dos recursos utilizados, consigo pensar meia dúzia de autores que fazem ou fizeram muito melhor. Há histórias mais bem acabadas, há surpresas mais surpreendentes, há interrupções, etc. Enfim, é bem feito mas não me conquistou. Mas acho que seria um bom livro para leitores não-aficionados.

Vida em outros universos

Meu contato com a ficção científica sempre se deu principalmente via Asimov, que nunca me pareceu um escritor que gostasse da escrita. Quando digo gostar da escrita, falo do prazer (ou necessidade) que o escritor tem de combinar as palavras de maneira a se expressar da maneira mais bela, perfeita e/ou precisa. Asimov sempre me pareceu ter muitas histórias para contar, e infelizmente o único meio possível para transmiti-las era esse, escrever. Se ele pudesse, nos transmitiria as ideias via USB. Nenhum parágrafo dele me parece ser escrito com ou para dar prazer, apenas para comunicar. E quando não está contando fatos e se vê obrigado a colocar um pouco de subjetividade – como no caso das cenas de sexo -, Asimov fica claramente ruim.

Por causa de Asimov fiquei com a impressão de que escritores de ficção científica não são capazes de escrever com beleza. Estava enganada. Olha que belo prefácio tem o livro 2011: uma odisseia no espaço:

Por detrás de cada homem vivo hoje estão trinta fantasmas, pois essa é a proporção pelo qual os mortos superam os vivos. Desde a aurora do tempo, aproximadamente cem bilhões de seres humanos já caminharam sobre o planeta terra.

Ora, esse é um número interessante, pois, por uma curiosa coincidência, existem aproximadamente cem bilhões de estrelas em nosso Universo local, a Via Láctea. Então, para cada homem que já viveu, brilha uma estrela nesse Universo.

Mas cada uma dessas estrelas é um sol, muitas vezes bem mais brilhante e glorioso do que a pequenina estrela próxima que, para nós, é o Sol. E muitos – talvez a maioria – desses sóis alienígenas têm planetas girando ao redor deles. Então, quase certamente existe Terra suficiente no céu para dar a cada membro da espécie humana, desde o primeiro homem-macaco, seu próprio paraíso – ou inferno – do tamanho de um mundo.

Quantos desses paraísos ou infernos em potencial são hoje habitados, e por quais espécies de criaturas, não temos como saber. O mais próximo fica um milhão de vezes mais distante do que Marte ou Vênus, estes objetivos ainda remotos da próxima geração. Mas as barreiras da distância estão desmoronando; um dia encontraremos nossos iguais, ou nossos senhores, entre as estrelas.

Os homens têm levado muito tempo para encarar essa perspectiva; alguns ainda esperam que ela jamais venha a se tornar realidade. Cada vez mais pessoas, entretanto, estão se perguntando: ” Por que esses encontros ainda não aconteceram, já que nós mesmos estamos prestes a nos aventurar no espaço?”

Realmente, por que não? Eis aqui uma possível resposta a essa pergunta muito sensata. Mas, por favor, lembrem-se: esta é apenas uma obra de ficção.

A realidade, como sempre, será muito mais estranha.

Arthur C. Clark

O olho, de Vladimir Nabokov

Não tenho muito o que dizer de O Olho, de Nabokov, sem entregar o livro. É curtinho, de pouco mais de cem páginas e acho que o trecho a seguir explica bem qual o sentido do título:

Muitas vezes, ao voltar a pé para casa, a cigarreira vazia, o rosto queimando na brisa da aurora como se eu tivesse acabado de remover uma maquiagem teatral, cada passo lançando uma pontada de dor que ecoava em minha cabeça, eu inspecionava minha débil felicidadezinha de um lado e de outro e me assombrava, tinha pena de mim mesmo e me sentia desanimado e medroso. O ápice do ato amoroso era para mim nada mais que um árido promontório com uma vista desoladora. Afinal de contas, para viver feliz, um homem tem de reconhecer vez ou outra alguns momentos de perfeito vazio. No entanto, eu estava sempre exposto, sempre de olhos bem aberto; mesmo com sono eu não cessava de me observar, sem entender nada de minha existência, enlouquecendo com a ideia de não conseguir deixar de ser tão consciente de minha presença, e invejando toda aquela gente simples – escriturários, revolucionários, lojistas – que, com confiança e concentração, desempenham seus pequenos trabalhos. (p.18-19)

Ao contrário do que o trecho pode dar a entender, é um livro muito divertido. Através dele descobri que não é por acaso que Humbert Humbert, o protagonista de Lolita, nos deixa em maus lençóis ao ser tão condenável e interessante ao mesmo tempo. O humor de Nabokov é fantástico, e O Olho tem várias passagens hilárias, tanto de cenas muito bem descritas como em forma de diálogos. O personagem principal é duplamente estrangeiro: por ser um russo vivendo em Berlim, mas também um estrangeiro de si mesmo depois de sua experiência de “quase morte”. É um olhar analítico e sarcástico, que procura entender o pequeno universo que tem ao seu redor: Matilda e o marido, o livreiro paranóico, as irmãs que vivem no andar de cima e seu círculo de amizades, o misterioso Smurov. É como um thriller psicológico, vale a leitura.

Carcereiros, de Drauzio Varella

Estação Carandiru, publicado há quinze anos, mudou a vida do seu autor, Dr. Drauzio Varella. Ele não esperava uma repercussão tão grande, e tanto ele quanto seu livro se tornaram famosos. Dr. Drauzio se tornou uma figura conhecida e fez vários programas no Fantástico, sempre unindo os temas de medicina e promoção de saúde. E, mesmo assim, ele jamais perdeu seus vínculos com o sistema prisional. Seus motivos estão em destaque na contracapa do Carcereiros:

Depois de 23 frequentando cadeias, não faz sentido especular como eu seria sem ter vivido essa experiência; o homem é o conjunto dos acontecimentos armazenados em sua memória e daqueles que relegou ao esquecimento. Apesar da ressalva, tenho certeza de que seria mais ingênuo e mais simplório. A maturidade talvez não tivesse me trazido com tanta clareza a percepção de que entre o bem e o mal existe uma zona cinzenta semelhante àquela que separa os bons dos maus, os generosos dos egocêntricos. Conheceria muito menos meu país e as grandezas e mesquinharias da sociedade em que vivo, teria aprendido menos medicina, perdido as demonstrações de solidariedade a que assisti, deixaria de ver a que níveis pode chegar o sofrimento, a restrição de espaço, a dor física, a perversidade, a falta de caráter, a violência contra o mais fraco e o desprezo pela vida dos outros. Faria uma ideia muito mais rasa da complexidade da alma humana.

Eu ressaltaria dois méritos que tornam Carcereiros um grande livro, e esse é o primeiro deles. O olhar do Dr. Drauzio nos aproxima dos seus personagens. Apesar de serem funcionários concursados e sem ficha criminal, sobre os carcereiros recai quase o mesmo estigma que carregam os prisioneiros: de serem pessoas más, violentas, também bandidos. Nos estudos sobre estigma, dizemos que ele tem uma propriedade contaminante, que estar perto de pessoas desacreditadas socialmente faz com que o outro também seja desacreditado, o que leva a um círculo vicioso de evitação. Para não ficarmos desacreditados, evitamos, e ao evitar aumentamos a distância, e quanto mais distantes, mais desumanizamos o outro. Sobre os bandidos ainda há a explicação de que eles “fizeram por merecer” seu estigma, mas sobre os carcereiros o preconceito é ainda menos justificável.

No primeiro capítulo, Dr. Drauzio retoma o massacre do Carandiru, mas desta vez mostrando o que acontecia ao lado, no pavilhão Oito. Foi graças à iniciativa de poucos funcionários que a tragédia ficou restrita ao pavilhão Nove. Os presos do pavilhão Oito foram convencidos pelos funcionários a entrarem novamente nas suas celas e aguardarem o rumo dos acontecimentos. Drauzio reconta o que aconteceu esse dia, a tensão de todos, as difíceis negociações, o heroísmo anônimo que salvou a vida de mais de duas mil pessoas. Os agentes carcerários cuidam dos presos no sentido amplo da palavra. Vindos para as prisões pelos mais diversos motivos, alguns por fascínio (que Dr. Drauzio confessa também possuir) pelo ambiente das cadeias, outros apenas pelo desejo de se tornarem funcionários públicos, vemos o quanto a rotina violenta mexe com a subjetividade de quem trabalha nas prisões. Num lugar é difícil saber o que é bom e o que é ruim, eles contam consigo mesmos e com a solidariedade dos companheiros. Assediados pelo tráfico, mal remunerados, testemunhas de barbaridades, o mesmo homem que salva a vida de um suicida tortura outro preso na sala.

Uma tarde, quando se preparava para sair do plantão, trouxeram à sua presença um rapaz de olhos aterrorizados, preso alguns dias antes por fazer parte de uma quadrilha de adolescentes que roubava toca-fitas nas adjacências da PUC, em Perdizes. Tinha o rosto inchado e o corpo coberto de manchas roxas, queimaduras com pontas de cigarro e cortes de faca, sequelas de uma luta travada com os quatro companheiros de xadrez, na tentativa infrutífera de evitar o estupro coletivo. O sangue que manchava a camisa e escorria pelas pernas da calça formou uma poça no chão. Quando a ambulância chegou, já estava a ponto de perder os sentidos.

Hulk ajudou a transportá-lo e subiu até a cela dos estupradores. Sem dizer uma palavra, retirou os dois que estavam mais próximos da porta e fechou o cadeado.

Na salinha do térreo, perguntou ao mais gordo e ao magrinho o que tinha acontecido:

– Nada – respondeu o mais entroncado – . Nós aqui nesse esgano, chega esse menino bonitinho de olho azul.

Hulk agarrou-o pelas axilas, levantou-o a um metro do chão e arremessou-o contra a parede como um saco de batatas, que fez um som oco e desabou desacordado. Enquanto o magricela pedia pelo amor de Deus para ser poupado, ele enrolou um pano para proteger a mão esquerda e desferiu-lhe um soco no peito que o deixou roxo de falta de ar. Antes que recuperasse o fôlego, veio o segundo na ponta do queixo. Voaram dois cacos de dente. (p.55)

O segundo mérito do livro é trazer à tona uma discussão mais ampla sobre os problemas das prisões. Sem ter ele mesmo respostas para um problema tão amplo, Dr. Drauzio aponta a impossibilidade das prisões, pelo menos no seu formato atual. Ele fala do contraste da luta pelos direitos humanos em guerras e situações excepcionais, e o total descaso com o preso, que é torturado o tempo todo – geralmente amontoado em celas imundas e insalubres, entediado, exposto à violência de outros presos. Quase na sua totalidade, são pessoas pobre e negras, que são “recompensadas” assim pela sua falta de escolaridade e oportunidades. Caso o maltrato exagerado aos presos não seja motivo suficiente, ele aponta que é impossível ter cadeias para tanta demanda. O número de recém encarcerados supera, diariamente, o número dos que são soltos. E os que são soltos estão mais violentos e com poucas possibilidades de arranjar emprego. Dr. Drauzio nos mostra que as cadeias são instituições monstruosas, violentas, com uma organização própria, onde todo cuidado e pouco. Ela maltrata os que ali entram, mesmo como funcionários. Homens normais e pacíficos são contaminados e transformados no ambiente prisional. É um livro que, assim como Estação Carandiru, está sempre dizendo aos leitores: você não vê, mas isso existe. Você quer ignorar, mas este também é um problema seu.

Três livros tão diferentes quanto bons

Nada como tomar chá de cadeira em aeroporto e ficar longe de casa para arranjar tempo para ler.  Li três livros muito bons durante a minha viagem, e não pude fazer uma crítica elaborada deles por não ter muita condição de ficar diante do computador. Por isso, segue uma crítica ligeira de cada um:

chandlerPara sempre ou nunca maisRaymond Chandler – Um dos livros do detetive Marlowe que eu mais gostei. Achei a história bem amarrada e dinâmica, apesar de não ter muitas daquelas observações ferinas e deliciosas que Chandler faz dos submundos. Logo de início, Marlowe é contratado para seguir uma mulher misteriosa, e logo ele se envolve em mistérios maiores. A explicação demora tanto pra chegar que eu até duvidei de que ela existisse.

O bom senso sempre fala tarde demais. O bom senso é o cara que lhe diz que você deveria ter regulado os freios na semana passada, antes de bater de frente nesta semana. O bom senso é como o jogador reserva que poderia ter feito a bola do jogo se estivesse no time. Mas ele nunca está. Ele assiste a tudo da arquibancada, uma garrafinha no bolso. O bom senso é um homenzinho num terno cinza, que jamais erra uma conta. Mas é sempre o dinheiro de outra pessoa que ele está contando.

Raymond Chandler/ Para sempre ou nunca mais p. 86-7

 

No país das últimas coisas, Paul Auster – Caí numa armadilha ao pegar esse livro.paul auster Minhas últimas leituras de Paul Auster me fizeram pensar que ele era um autor que só escrevia coisas fofas. Este país é quase como um Cidades Invisíveis versão decadência. São as últimas coisas porque a cidade se desfaz por todos os lados; o livro parece um exercício de imaginar que estratégias de sobrevivência as pessoas se serviriam se toda civilidade e esperança se acabasse. Enquanto a história da protagonista não se desenrola, somos levados a um pessimismo terrível.

Tantos de nosotros nos hemos convertido otra vez en niños! No es que lo haymos buscado, ya me entiendes, ni que seamos conscientes de ello. Pero cuando la fe desaparece, cuando comprendes que ni siquiera te queda la esperanza de recuperar la esperanza, entonces tiendes a llenas los espacios vacíos con sueños, pequeñas fantasías y cuentos infantiles que te ayuden a sobrevivir.

Paul Auster/ El país de las últimas cosas p.19

O Enigma do Coronel Fawcett: o Verdadeiro Indiana Jones, Hermes Leal–  Esse foi uma grata surpresa. A história de Fawcett, um inglês obcecado por encontrar a Atlântida no Brasil, enfrfawcettentando todo tipo de dificuldade nos rios e matas virgens, lidando com índios e a própria dificuldade de conseguir ajudantes, driblando o governo brasileiro e a própria imprensa que ele mobilizou, já é ótima. Aí quando o coronel some, a história fica melhor ainda: as crenças místicas da sua família, as expedições sérias e fantasiosas em busca do coronel, as muitas versões para o seu fim. No epílogo, o autor fala de uma expedição ingênua que ele e seus amigos tentam fazer em busca dos rastros de Fawcett e se vêem ludibriados por índios que nada têm de ingênuos.

As tais Frenéticas

as tais freneticasComo avisam o doutor Drauzio Varella no prefácio e a própria autora na introdução, o livro As tais Frenéticas – eu tenho uma louca dentro de mim é sincero e despretensioso, o que não quer dizer que seja desinteressante. As Frenéticas dispensam apresentações: foram e conviveram com os maiores nomes da música brasileira no anos 70. Quem conta os inúmeros causos é a ex-Frenética Sandra Pêra, irmã de Marília Pêra, ex-cunhada de Nelson Motta, mãe de uma filha de Gonzaguinha, ex-colega de apê de Ney Matogrosso, e por aí vai… É um livro cheio de fotos, com capítulos curtinhos e mais ou menos cronológico. A gente senta pra dar uma olhadinha e não consegue largar mais.

As Frenéticas começam de uma maneira tão improvável que parece conto de fadas: Nelson Motta recebe a proposta de agitar uma casa noturna que seria demolida em poucos meses, convida sua cunhada atriz, que convida amigas também atrizes e cantoras. “Regina também lembrou de Edir de Castro, recém separada de Zé Rodrix, com uma filha pequena, a Joy, ainda abalada com a separação e precisando trabalhar para vida ficar bacana. No dia seguinte lá estavam as duas, prontas.” Elas serviriam mesas e por volta da meia noite, cantariam algumas músicas em cima do balcão. Elas foram atrás das gorjetas, só queriam um emprego temporário. O Dancing virou febre, elas entraram em contato com seus ídolos (“Alguém pode imaginar o que é ter Gal Costa te vendo cantar? Caetano? Não, ninguém pode”) e durante os primeiros anos, tudo o que tocavam virava sucesso. E o sucesso, visto por dentro, é muito menos glamouroso do que se pensa. Sandra fala das viagens cansativas, de ganhar pouco, das drogas – mas aviso que seu olhar nada tem de amargo. O sucesso é mostrado como apenas um pedaço da vida, algo que acontece junto picuinhas, amores, família e pequenos momentos de felicidade.

 

Não lembro precisamente a data, mas foi durante a primeira saída do Rio. Era um festival de rock, um camping pop em Belo Horizonte. Vários artistas se apresentaram, me lembro da Gal, do Joelho de Porco e de várias outras bandas. Quando chegamos, o tumulto já estava armado. O Joelho de Porco tinha acabado de se apresentar e, durante o show, alguém tentou subir no palco e foi impedido, acho que de forma meio bruta, pelos seguranças. Então outros também começaram a subir no palco. Houve confusão e ouvíamos mil histórias, que não sei quem caiu no palco, que quebraram não sei que aparelhagem, que alguém havia ido parar no hospital. Enfim, fomos para o palco depois de muita espera e tensão. O som era de sétima qualidade. Os microfones não funcionavam. Por causa disso, cometemos mil erros, pois não nos ouvíamos direito, mas arrebentamos com nossa energia. Não entendo até hoje como o público muitas vezes não percebe, não ouve ou não liga para os deslizes que às vezes são cometidos pelos seus ídolos enquanto cantam.

A noite estava linda! O céu coalhado de estrelas, um vento totalmente à favor, gostoso. Eu, para variar, banhada em suor. Meu cabelo era imenso, todo molhado, era como se eu tivesse lavado a cabeça. Estava meio em êxtase, mas aflita com aquela aparelhagem sem retorno, com medo de estar cantando mal, quando, de repente, no meio de uma canção, vi uma estrela cair do céu! Fiquei louca! Era a primeira vez na vida que eu via uma estrela cadente. Tentei mostrar às outras, não consegui. Ela caiu só pra mim. Riscou o céu inteiro enquanto eu cantava. Eu pensava: é sorte, Sandra, é sorte.

p.64

Por falar em amores, meu sentimento final ao ler o livro foi de tristeza. Não pelo fim das Frenéticas, que logo no começo a autora deixa claro que sabia que não durariam para sempre. Eu me senti triste pela morte de Gonzaguinha, descrito com tanta doçura que é impossível não ficar apaixonada. Não sei se de maneira consciente ou não, a maneira como a história é construída faz dele o grande protagonista. Quando Sandra volta do fim do Dancing e ouve seus discos, quando ele a encontra apavorada no avião, quando oferece às Frenéticas a música Feijão Maravilha… Gonzaguinha é aquele amor que está à espera enquanto Sandra está ocupada demais curtindo, crescendo. Um dias eles se encontram, prontos, e desse grande amor nasce uma filha. Dá vontade de acreditar que vão ser felizes para sempre. No fim do livro, numas das últimas fotos, Gonzaguinha está com a filha nas costas, lindos. Fica a sensação de que aquela festa em que vale tudo acabou em algum lugar dos anos 80.