Escolarizando o mundo

O filme discute a suposta superioridade cultural que ajuda a escola a salvar as crianças da pobreza. Ao retirar as crianças de suas comunidades tradicionais, a escola se mostra eficiente no rompimento de laços e destruição de conhecimentos ancestrais.

Retirado do Café história.

Gabriela, cravo e canela

gabriela-cravo-e-canela-jorge-amadoEu não vi nenhuma das três novelas e não vi o filme. Muito menos me interessei pela  minissérie, com Juliana Paes no papel título e Humberto Martins como Nacib. Mas eu achava que sabia tudo sobre Gabriela. Ela era Sonia Braga pendurada no telhado pra pegar uma pipa, despreocupada com a calcinha à mostra e os homens babando embaixo. Era um livro sobre uma mulher que enlouquecia os homens na machista Ilhéus. Se quisesse saber mais detalhes, bastava assistir o filme na íntegra no youtube.

Assisti uma palestra em que uma tradutora se queixava de que as pessoas não se davam mais ao trabalho de ler alguns clássicos infantis no original por causa dos desenhos da Disney. Se há uma adaptação Disney, supõe-se que já está tudo lá e a história está esgotada. E nem sempre – e ela alertou com exemplos muito interessantes do Pinóquio – o espírito da obra se mantém, tamanhas adaptações. Tenho a impressão de que Jorge Amado sofre do mesmo mal.

Muita coisa recordava ainda o velho Ilhéus de antes. Não o do tempo dos engenhos, das pobres plantações de café, dos senhores nobres, dos negros escravos, da casa ilustre dos Ávilas. Desse passado remoto sobravam apenas vagas lembranças, só mesmo o Doutor se preocupava com ele. Eram os aspectos de um passado recente, do tempo das grandes lutas pela conquista da terra. Depois que os padres jesuítas haviam trazido as primeiras mudas de cacau. Quando os homens, chegados em busca de fortuna, atiraram-se para as matas e disputaram, na boca das repetições e dos parabéluns, a posse de cada palmo de terra. Quando os Badarós, os Oliveiras, os Braz Damásio, os Teodoros das Baraúnas, outros muitos, atravessaram os caminhos, abriam picadas, à frente dos jagunços, nos encontros mortais. Quando as matas foram derrubadas e os pés de cacau plantados sobre cadáveres e sangue. Quando o caxixe reinou, a justiça posta a serviço dos interesses dos conquistadores de terra, quando cada grande árvore escondia um atirador na tocaia, esperando sua vítima. Era esse passado que ainda estava presente em detalhes da vida da cidade e nos hábitos do povo. Desaparecendo aos poucos, cedendo lugar às inovações, a recentes costumes. Mas não sem resistência, sobretudo no que se referia a hábitos, transformados pelo tempo quase em leis.

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Tive com Jorge Amado o mesmo problema que tive com Virginia Woolf, após ler Orlando. Orlando para mim era um livro tão perfeito, que durante muitos anos me recusei a ler qualquer outra coisa de Woolf, acreditando que a decepção era inevitável. No caso de Jorge Amado, o livro que me deixou assim foi Dona Flor e seus dois maridos. Também demorei a ler esse livro por causa das imagens conhecidas, da Sonia Braga, da mão na bunda na saída da igreja, acompanhada de Zé Wilker nu. Eu me surpreendi, em Dona Flor, com um livro sensível, sobre amor e casamento, sobre o que é necessário e a busca pela felicidade. Um livro com uma personagem feminina forte, doce e séria, ao mesmo tempo que sensual e apaixonada. Temi encontrar em outra obra de Jorge Amado apenas uma repetição dos mesmos temas. O que eu não poderia imaginar é o quanto Gabriela vai além da sensibilidade de Dona Flor. Gabriela tem muitas tramas paralelas, todas interessantes. Além disso, nos faz conhecer até um pouco da história do Brasil, ao descrever mentalidades e costumes da época (será que apenas daquela época?)

, claro, o amor de Nacib e Gabriela. Há ali uma história de amor, a busca de um encaixe de indivíduos e expectativas diferentes. Gabriela é toda instinto, felicidade e prazer, alguém difícil de se identificar. Já Nacib é um personagem adorável; é a personificação do homem que vive e sofre as exigências da masculinidade. Como estrangeiro, e simbolicamente podemos pensar que um estrangeiro é sempre alguém fora do lugar, que não pertence por inteiro aos valores de onde está. Um lado de Nacib atende ao que se espera de um homem, com sua ambição, suas paixões e seu horror à infidelidade feminina. Por outro, o apego que ele tem às coisas simples da vida, ao comer bem e dormir, as fofocas do bar, o carinho dos amigos e, sobretudo, ao seu imenso coração, fazem de Nacib um crítico. Mesmo que não diga, ele reconhece o direito à busca da felicidade, mesmo às mulheres, e se compadece de todo aquele que sofre nessa busca. Nacib é um homem que tenta ser como se espera dele e nem sempre consegue. E é justamente esse desajuste que faz de Nacib querido e acertado. Ele consegue resolver sua situação de forma muito melhor que Jesuíno, o fazendeiro que que mata sua esposa Sinhazinha e seu amante, Osmundo, logo no início da trama.

É com essa morte que o livro começa e termina, como se a história de Jesuíno e Sinhazinha fosse madrinha do amor de Nacib e Gabriela. O contraste entre as duas histórias e a maneira como seus protagonistas as resolvem, representa um processo maior, que de certa forma é também o tema do livro: o progresso de Ilhéus. No agitado ano de 1925, de safra recorde, Ilhéus vive intensamente a mudança. Na política, ela motivada pelo embate de Mudinho Falcão e Ramiro Bastos; o primeiro buscando o progresso e o outro, pioneiro na construção de Ilhéus que luta pela manutenção do status quo. Vemos uma cidade que quer expandir seu porto, abre clubes, funda jornais, recebe artistas, realiza saraus e, ao mesmo tempo, ainda resolve as coisas com jagunços, ameaças, tiros, surras. Nas relações entre os gêneros, Malvina, a filha do coronel Melk, representa a mudança feminina, que quer mais do que os papéis que lhe são tradicionalmente reservados: esposa, que tem seus direitos e deveres ligados ao lar; concubina, sustentada por homens ricos e também devedoras a eles; e as livres e marginalizadas prostitutas. Malvina, escolarizada e inteligente, quer ser livre num sentido profundo, e não apenas à serviço do homem que a sustenta. Para resolver esse conflito, ela é obrigada a se retirar. Mas os que ficam, como Josué e Glória e o próprio casal Nacib e Gabriela, mostram que a ainda há espaço para negociação; eles se tornam pioneiros de uma maneira nova (e um pouco mais aberta) de se relacionar.

A maior riqueza do livro está, a meu ver, na maneira como somos conduzidos a acompanhar mudanças sociais profundas do ponto de vista no seu dia a dia. São personagens, pessoas comuns, que na busca pelos seus interesses, modificam o lugar onde vivem e o influenciam. Eles agem conforme suas bases culturais e os costumes que os cercam, ora cedendo, ora negociando. No fim daquele ano – ano de Gabriela, ano de Mudinho Falcão, ano do porto de Ilhéus, um ano definitivo – muitas coisas acontecem. E mesmo as que aparentemente voltaram pro seu lugar estão diferentes, mais modernas.

Como pesquisar na biblioteca

Post originalmente publicado no Livros & Afins

Minha mãe é bibliotecária e diz que não é raro as pessoas entrarem numa biblioteca  sem saber por onde começar. Pensando nisso, resolvi escrever este post como um be-a-bá. Pode parecer simples para quem já tem intimidade com bibliotecas, mas esse é o tipo de conhecimento que, por se supor que todos têm, ninguém ensina. Entender o funcionamento de uma biblioteca  nos ajuda a circular com intimidade entre as prateleiras, fazer pesquisas mais eficientes e encontrar preciosidades.

1º Etapa: Catálogo

Um livro catalogado é um livro que recebeu uma etiqueta que o identifica. Essa identificação consiste em certos números, que estão anotados na lombada do livro e em diversas fichas. As fichas estão à disposição dos usuários e há três maneiras possíveis de procurar o mesmo livro: nome do autor, nome do livro e assunto. Isso ajuda muito, porque às vezes sabemos apenas o nome do livro, ou queremos um livro qualquer de um autor, ou queremos um livro de qualquer autor e com qualquer nome, mas que nos esclareça sobre algum assunto.

Existem, então, pelo menos três caminhos diferentes para chegar ao mesmo livro. Eu posso procurar por livros de Guimarães Rosa, indo ao fichário de Autores e procurando por ROSA, Guimarães. Posso encontrá-lo pelo título do livro Sagarana no catálogo de Títulos. E posso encontrá-lo como Literatura Brasileira, Novelas  brasileiras, dentre outros, no catálogo de Assunto. Em todas essas fichas, estará anotado um número no canto. O exemplar da Biblioteca Pública do Paraná que tenho em mãos é:

B869.35
R788
SAG

Não é incomum as pessoas acharem que as fichas podem ser arrancadas do catálogo. Um ficha arrancada é uma informação perdida, talvez para sempre. Esse número deve ser anotado num papelzinho. Geralmente os catálogos tem um papelzinho de rascunho e canetas por perto.

2º Etapa: Sala

Se a biblioteca for grande, ela terá salas – ou sessões, ou andares – separadas para vários assuntos: “História, Geografia e Ciências Sociais” ou “Filosofia e Literatura” ou “Literatura infanto-juvenil”. Basta ir à sala que corresponde ao assunto do seu livro. Caso você não faça ideia de como ele foi classificado (alguns livros podem ser classificados de mais de uma maneira), tente descobrir isso através do número que o identifica – isso pode estar na entrada de cada sala ou numa lista próxima do catálogo. Por exemplo: o número 800 identifica os números classificados como Literatura. Então, como o livro que eu procurei no catálogo (Sagarana, de Guimarães Rosa) é 869, ele na sala de Literatura.

3º Etapa: Estante

Ao chegar perto das estantes, elas normalmente possuem etiquetas ou alguma coisa que as identifica. Essas etiquetas podem dizer que número elas possuem, que tipo de livro estão lá, ou as duas coisas – “Literatura brasileira – B869″. É como procurar uma rua. Tente encontrar o número que mais se aproxima do livro que você procura e veja pra que sentido os números vão. No exemplo que eu dei, em primeiro lugar devo procurar pelo número 869. Quando encontrar o número 869, começo a procurar pelos números que vem logo a seguir – 869, 869.0, 869.1, 869.12, 869.18373, 869. 2… Perceba que a contagem não é a mesma que fazemos normalmente. Antes de chegar no 870, o 869 ganha vários números depois. Primeiro levamos em conta o número que vem logo depois do ponto, e depois o outro e o outro. No sistema da biblioteca 869.19870 vem antes do 869.2, porque o primeiro tem o 1 logo depois do 869 e o outro tem 2 logo depois do 869. A classificação funciona assim pra permitir a entrada de novos livros sem ter que refazer tudo.

Depois que você encontra o mesmo número que estava procurando (869.35), está na hora de procurar pelos dados que estão embaixo. Logo abaixo, na primeira linha sempre tem uma letra. Aí basta procurar em ordem alfabética. O r do R788 (na ficha de exemplo que eu dei acima) indica o sobrenome do autor: Rosa. Isso quer dizer que, dentre todos os livros de literatura brasileira da biblioteca, estamos diante dos livros de e sobre Guimarães Rosa. O número seguinte, 788, é procurado na ordem normal (786, 786, 788..). As três letras embaixo, no caso SAG, indicam o título do livro: SAGarana. Lembre-se que é o título original, na língua que o livro foi publicado. Se vocês for procurar pelo livro Grandes Esperanças de Charles Dickens, as três letras embaixo serão GRE, de Great expectations.

.oOo.

Aí é só encontrar o livro. Se ele não estiver na estante, pode ser que esteja emprestado, que foi emprestado e não foi recolocado ou que tenha sido roubado. Para emprestar, é preciso fazer uma carterinha da biblioteca. Geralmente é rápido e eles exigem o preenchimento de uma ficha, um documento e um comprovante de endereços. Na maioria das bibliotecas é possível passar duas semanas com o livro e renová-lo uma única vez, durante mais duas semanas. O empréstimo só pode ser renovados quando a devolução é feita dentro do prazo. Fora do prazo, é preciso pagar uma multa, de um valor fixo que aumenta por dia.

Essas são indicações gerais. As bibliotecas classificam os livros num sistema universal, então você encontrará esse mesma lógica aonde quer que for. Para informações mais precisas, vá à biblioteca do seu bairro ou da sua cidade e dê uma passeada. Com bibliotecas a gente desenvolve uma relação de intimidade.

O longo adeus

chandlerO gênero policial, de cara, não me interessou. Eu li muita Agatha Christie na minha adolescência, até cansar. O nome Philip Marlowe não me era estranho, por causa do Ernani Ssó. O fato de ser uma edição de bolso ajudava. Peguei porque a contracapa informava que O longo adeus era um dos maiores romances da literatura americana de todos os tempos. O superlativo, por mais que não fosse merecido, indicava um clássico. E clássicos sempre valem a pena, nem que seja para dizer que não gostou.

Se eu nunca havia lido Chandler ou Marlowe, como é que antecipadamente eu sabia que, por ser detetive, ele era um sujeito durão, solitário, um certo charme, cigarro no canto da boca, que apanha mas não se dobra, bebida alcoólica a qualquer hora do dia? E que ele tem suas conexões, uma relação pouco harmoniosa tanta com a polícia quanto com os bandidos, um escritório vazio e meio abandonado, não trabalha por dinheiro e sim por um sentido de honra bastante particular? Mais: como eu poderia antecipar as comparações interessantes, o humor e até mesmo a loira sedutora com culpa no cartório e que procura nosso herói para ajudar a encontrar seu marido desaparecido? Pior ainda: pra que ler Chandler e não os muitos que vieram depois, como Columbus ou até mesmo Ed Mort, depois de perceber tudo isso? Porque Chandler não é qualquer porcaria, ele não é qualquer um. Ele é o pai do gênero. Todos detetives particulares pé rapados são tributários a Marlowe. E tanta gente teve vontade de escrever detetives assim porque Chandler o faz com baita estilo:

Existem loiras e loiras, e isto é quase uma piada hoje em dia. Todas as loiras têm pontos em comum, exceto talvez as loiras metálicas que são tão loiras quanto um zulu embranquecido e com uma disposição tão macia quanto uma calçada. Há a loira pequena e engraçadinha, que anda perto do chão e ri agitada, a loira grande como uma estátua, que nos abraça com um simples olhar azul-gelado. Há a loira que nos dá uma olhada de alto a baixo e cheira bem que é uma beleza, brilha e se dependura no seu braço e está sempre muito, muito cansada quando você a leva pra casa. Ela fez um gesto desamparado e tem uma dor de cabeça danada e você tem vontade de bater nela e só não bate porque no fundo está satisfeito de ter descoberto da dor de cabeça antes de investir tempo, dinheiro e esperanças demais nela. Porque esta dor de cabeça via sempre existir, uma arma que nunca falha e é tão mortal quanto o espadim de um bravo ou o anel de veneno de Lucrécia.

Existe a macia e alcóolica loira que está a fim e não se importa com a roupas que veste desde que seja mink, ou para onde vai desde que seja para o Starlight Roof, onde tem champanha seco à beça. Existe a pequena e viva loira, que faz questão de pagar sua parte e vive cheia de raios de sol, bom senso, e sabe lutar judô, e pode puxar um chofer de caminhão por cima do ombro sem perder mais que uma linha do editorial do Saturday Review. Há a loira pálida com anemia de algum tipo não fatal mas incurável. É bem lânguida, bem sombria e fala macio sobre qualquer coisa. Você não pode tocar um dedo nela porque, em primeiro lugar, você não está a fim, e, em segundo lugar, ela está lendo The Waste Land ou Dante no original, ou Kafka ou Kierkegaard – ou então está estudando provençal. Ela adora música e quando a Filarmônica de Nova Iorque toca Hindemith é capaz de dizer qual dos seis contrabaixos vai aparecer num quarto compasso depois. Ouvi falar que Toscanini também consegue fazer isso. São dois, portanto.

E por último existe aquela maravilha que vai fazer hora com três gangsters da pesada e depois se casar com alguns milionários, um milhão por cabeça, e termina a vida com uma villa rosa-pálido em Cap d´Antibes, um Alfa-Romeo equipado com piloto e co-piloto, e um rebanho de sólidos aristocratas, sendo que a cada um deles ela irá tratar com uma afeição distraída, como se fosse um velho duque dizendo boa-noite ao seu mordomo.

Essa é outra vantagem de se ler os clássicos: chegar na fonte, entender como e porquê tudo começou.

Uma pequena lembrança que me veio à tona lendo 1808

Mandei a minha dissertação para a editora da UFPR, e tal como acontece nesses casos, ela foi enviada a três pareceristas. Eu tive acesso aos três pareceres. Dois eram bastante elogiosos e recomendaram fortemente a publicação. O terceiro parecer, bastante longo, destilava tal ódio que até hoje me pergunto pra que inimigo meu ele foi mandado. Havia desde implicâncias mínimas, como reclamar que eu repeti muito a expressão “este livro” – e uma busca no word mostrar que eu a usei apenas duas vezes – a dizer que capítulos inteiros eram ruins, desnecessários ou preconceituosos. Uma dessas muitas críticas dizia que eu não entendia nada dos conceitos que usei, dada a forma simples e direta com que eu os descrevia.

Ora, quem escreve sabe que o simples e o direto é justamente o mais difícil de fazer. Escrever “como dizia Fulano” e encher o texto de aspas e citações é muito mais fácil. O autor não se expõe, o parágrafo se torna uma sopa de letrinhas e o leitor que se vire pra entender aquilo. Colocar em ordem, apresentar de forma didática e usar o discurso direto, isso sim é muito difícil. Exige domínio do que vai ser exposto e muito trabalho com a escrita.

É justamente esse o segredo do sucesso da série de livros de história do Brasil de Laurentino Gomes, os best sellers 1808, 1822 e 1889. São fontes sérias mastigadas da maneira mais interessante possível. É tão bom de ler que dá sempre aquela sensação de: nem parece um livro de História do Brasil…

 E foi assim que os portugueses reagiram na manhã de 29 de novembro de 1807, quando circulou a informação de que a rainha, o príncipe regente e toda a corte estavam fugindo para o Brasil sob a proteção da Marinha britânica. Nunca algo semelhante tinha acontecido na história de qualquer outro país europeu. Em tempos de guerra, reis e rainhas haviam sido destronados ou obrigados a se refugiar em territórios alheios, mas nenhum deles tinha ido tão longe para viver e reinar do outro lado do mundo. Embora os europeus dominassem colônias imensas em diversos continentes, até aquele momento nenhum rei havia colocado os seus pés em seus territórios ultramarinos para uma simples visita – muito menos para ali morar e governar. Era, portanto, um acontecimento sem precedentes tanto para os portugueses, que se achavam na condição de órfãos da sua monarquia da noite para o dia, como para os brasileiros, habituados até então a ser tratados como uma simples colônia extrativista de Portugal.

No caso dos portugueses, além da surpresa da notícia, havia um fator que agravava a sensação de abandono. Duzentos anos atrás, a noção de Estado, governo e identidade nacional era bem diferente da que se tem hoje. Ainda não existia em Portugal a ideia de que todo poder emana do povo e em seu nome é exercido – o princípio fundamental da democracia. No Brasil de hoje, se, por uma circunstância inesperada, todos os governantes fugissem do país, o povo ainda teria a prerrogativa de se reunir e eleger um novo presidente, deputados e senadores, de modo a recompor imediatamente o Estado e seu governo. As próprias empresas, depois de um período de incerteza pela ausência de seus donos ou dirigentes, poderiam se reorganizar e continuar funcionando. Em Portugal de 1807 não era assim. Sem o rei, o país ficava à mingua e sem rumo. Dele dependiam toda a atividade econômica, a sobrevivência das pessoas, o governo, a independência nacional e a própria razão de ser do Estado português.

1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil,  p.30-31

A consciência de Zeno

zenoTenho que começar A consciência de Zeno com o prefácio de outro livro (que ainda não li) de Italo Svevo, Senilidade. Nele o autor conta que seu primeiro livro, Uma vida, recebeu uma acolhida positiva de alguns críticos. Já o seu segundo livro, Senilidade, lançado seis anos depois, foi totalmente ignorado pela crítica. Como resultado, “resignei-me diante de um juízo tão unânime (não existe unanimidade mais perfeita que a do silêncio), e por vinte e cinco anos abstive-me de escrever”. Depois Svevo conta que foi o apoio de alguns poucos críticos e amigos, dentre eles James Joyce, que conseguiu trazê-lo de volta ao mundo da literatura. Quando começamos a ler Svevo, é impossível não lamentar que as coisas tenham acontecido dessa forma, pensar nos livros geniais a humanidade não perdeu por causa desses vinte e cinco anos de descrédito. Svevo é tão bom, tão deliciosamente irônico, sua forma de escrever é tão atual que… talvez tenha sido esse seu problema. Senilidade foi publicado pela primeira vez em 1848*.

Prefácio

Sou o médico de quem às vezes se fala neste romance com palavras pouco lisonjeiras. Quem entende de psicanálise sabe como interpretar a antipatia que o paciente me dedica.

Não me ocuparei de psicanálise porque já se fala dela o suficiente neste livro. Devo escusar-me por haver induzido meu paciente a escrever sua autobiografia; os estudiosos de psicanálise torcerão o nariz a tamanha novidade. Mas ele era velho, e eu suponha que com tal evocação o seu passado reflorisse e que a autobiografia se mostrasse um bom prelúdio ao tratamento. Até hoje a ideia me parece boa, pois forneceu-me resultados inesperados, os quais teriam sido ainda melhores se o paciente, no momento crítico, não se tivesse subtraído à cura, furtando-me assim os frutos da longa e paciente análise destas memórias.

Publico-as por vingança e espero que o autor se aborreça. Seja dito, porém, que estou pronto a dividir com ele os direitos autorais desta publicação, desde que ele reinicie o tratamento. Parecia tão curioso de si mesmo! Se soubesse quantas surpresas poderiam resultar do comentário de todas as verdades e mentiras que ele aqui acumulou!…

Doutor S.

1848 é o mesmo ano de publicação de A dama das Camélias, de Alexandre Dumas. Perto de Zeno, a história de uma cortesã apaixonada nada tem de tão ousado. Com exceção do prefácio, A consciência de Zeno é todo na primeira pessoa, numa tentativa de Zeno destrinchar o próprio passado. Já começa aí a ousadia da narrativa, que como rememória não segue um rigor cronológico. Outra questão é o problema de credibilidade que se cria logo no início com o leitor: Zeno se mostra tão mentiroso e exagerado, confessando suas mentiras e nos fazendo entender que podem existir muitas outras, que se é levado a pensar que nada do que está descrito pode ter acontecido daquela forma. O mundo de Zeno gira em torno de algumas poucas figuras – Guido, Ada, Augusta, Carmen – e com nenhuma delas ele é capaz de agir conforme o que pensa. Talvez nem com o leitor. Dele só temos certeza do cinismo. Como se tudo isso não bastasse, o livro tem um grande senso de humor, pela ironia que aparece em quase todos os momentos, pelas passagens onde Zeno diz coisas que para outros seriam impensáveis. Ao mesmo tempo, nenhum desses exageros serve como desculpa ou tornam Zeno um daqueles vilões adoráveis. O leitor não entende, não aprova, lê o livro inteiro se perguntando quem é esse homem e do que ele é capaz, o que o motiva. Quando o livro chega ao fim, há uma certa forma de resposta ou de explicação. E ela não é nem um pouco edificante, ninguém se sacrifica em prol da família burguesa.

Da minha parte, tenho para comigo que ele, Svevo, era um gênio. James Joyce, independente do que escreveu, já mereceria meu respeito apenas por ter lutado para não deixar Svevo morrer no esquecimento.

* ERRATA: Como bem observou Ernani Ssó nos comentários, errei a data. Com isso errei toda comparação posterior com A Dama das Camélias… Deixarei o texto como está. É um livro extraordinário, relevem meu erro e leiam-no.

Outro Paul Auster

Embalada pelo livro anterior, li Desvarios do Brooklyn. Como dá pra perceber, nem me animo a escrever uma crítica. Não há um único trecho digno de nota. O livro é bem escrito; a história do homem sem perspectivas que se muda pro bairro e lá encontra seu jovem sobrinho também sem perspectivas promete. Mas aí, muito antes do livro realmente terminar, as coisas se resolvem de maneira mágica e fofa, tais como filmes americanos. Assim como me recuso a ir pro cinema pra ver filmes assim, e espero que eles passem na TV, Desvarios do Brooklyn também só vale a leitura se você não tiver nada melhor para ler e quiser descansar a mente.