O caderno vermelho

caderno vermelhoO livro é curtinho, 85 páginas, de ler numa sentada. Ele não se pretende muito. É daquelas obras que pra quem não entende o processo da escrita, parece coisa simples. Que o autor começou a lembrar de coisas, sentou e escreveu à medida histórias à medida que elas surgiram na memória e o livro ficou pronto. Quase certo que não é nada disso. Porque é muito difícil um livro de crônicas (não sei como classificá-las) ter uma coerência natural, apesar de tratar de histórias tão distintas entre si. O que as une é o acaso, e sabemos o quanto o acaso pode ser imaginativo. Mais difícil ainda é que crônicas sejam interessantes do inicio ao fim, que não enjoem o leitor. Quem lê se sente curioso e inspirado, sem nem mesmo entender o porquê. Talvez por serem tão realistas, tão próximas da vida e nos relembrem de algo. O leitor adivinha que existe um fluxo, alguma ponta que vai se unir a outra, e queremos descobrir o que é.

Mais ou menos nesse mesmo espírito, embora abrangendo um tempo mais curto (um punhado de meses, em oposição a vinte anos), um outro amigo, R., me contou sobre certo livro raro que ele vinha tentando localizar sem sucesso, vasculhando livrarias e catálogos em busca de uma obra supostamente notável, que ele queria muito ler, e como, certa tarde, enquanto andava pela cidade, ele tomou um atalho pela estação Grand Central, subiu a escada que vai dar na avenida Vanderbirt e avistou uma jovem de pé junto à baluastra de mármore, com um livro nas mãos: o mesmo livro que ele vinha tentando localizar tão desesperadamente.

Embora não seja do tipo que costuma falar com estranhos, R. ficou espantado demais com a coincidência para conseguir permanecer calado. “Acredite ou não”, disse ela à jovem, “eu tenho andado à procura desse livro por toda a parte”.

“Ele é maravilhoso”, respondeu a jovem. “Acabei de ler neste instante”.

“Sabe onde posso achar outro exemplar?”, perguntou R. “Não posso lhe dizer o quanto significa para mim.”

“Este aqui é para você”, respondeu a mulher.

“Mas ele é seu”, disse R.

“Ele era meu”, respondeu a mulher, “mas agora eu já acabei de ler. Eu vim aqui hoje para entregá-lo a você.”

p. 26

Que este texto faça você adquirir O caderno vermelho o dia que ele surgir na sua frente.

Audrey Hepburn, Bonequinha de luxo e o surgimento da mulher moderna

quintaavenidaVocês vão me perdoar ter colocado em destaque o subtítulo do livro, que na realidade se chama Quinta Avenida, 5 da manhã. Posso dizer sem medo que foi a minha melhor aquisição em 2013. É muito raro passar numa livraria e encontrar por cinco reais um livro que não parece valer muito mais do que isso. O preço original é de quarenta, mas quem compraria? A capa e a contra capa possuem elogios rasgados e a declaração de que se trata de um best-seller, mas e quantos não são? Nunca ouvi falar do livro e do seu autor (Sam Wasson), peguei unicamente porque era uma pechincha. E é um daqueles livros raros salvam vidas em fins de semana chuvosos deprimentes. Ele é todo interessante, de ler numa sentada e tentar enfiar goela abaixo de todos os nossos amigos, porque dá uma vontade louca de comentar. Sintam só os primeiros parágrafos da introdução:

Como um daqueles acidentes que não são realmente acidentes, a escolha da “boazinha” Audrey para o papel da “não tão boazinha” garota de programa Holly Golightly mudou o rumo das mulheres no cinema, dando voz ao que até então era uma mudança não expressa no gênero nos anos 50. Sempre houve sexo em Hollywood, mas antes de Bonequinha de Luxo, só as garotas más é que faziam sexo. Com poucas exceções, garotas boazinhas no cinema tinham de se casar antes de ganhar seu primeiro fade out, enquanto as mais provocantes ganhavam fades outs o tempo todo e com todo tipo de homem em praticamente todas as posições (sociais) . Nem é preciso dizer, no fim elas pagavam o preço pela diversão. As meninas más sofriam/ se arrependiam, amavam/ casavam, ou sofriam/ se arrependiam/ casavam/ morriam; mas a ideia geral era basicamente a mesma: senhoritas, não tentem fazer isso em casa. Só que em Bonequinha de Luxo, de repente – porque era Audrey que fazia o papel – , morar sozinha, sair, andar linda e ficar um pouco bêbada não era mais tão ruim. Ser solteira, na verdade, não parecia motivo de vergonha. Parecia divertido.

Embora possam ter deixado passar, ou não ter identificado isso de imediato, a pessoas que conheceram a Holly Golightly de Audrey em 1961 experimentaram , pela primeira vez, a glamourosa fantasia de uma vida de independência desenfreada e excêntrica e liberdade sexual sofisticada; o melhor de tudo, era uma fantasia possível de se realizar. Até Bonequinha de Luxo, as mulheres glamourosas do cinema ocupavam um estrato disponível apenas para as damas loucamente chiques, envoltas em cetim debruado  de arminho, do boulevard, nas quais ninguém, a não ser a verdadeira estrela de cinema, podia se transformar. Mas Holly era diferente. Ela usava coisas simples. Não eram coisas caras. E pareciam fantásticas.

p. 17-18

O livro conta a trajetória do filme. Ao situar Bonequinha de Luxo nos anos 50, descobrimos o quanto o filme revolucionou sua época e a vida dos que se envolveram nele. O autor nos faz entender o papel do cinema durante a guerra, quem são e como são escolhidas as estrelas de cinema, o papel reservado às mulheres no pós-guerra (impossível não lembrar de Mad Men). Vemos as questões que se colocam a roteiristas, diretores e grandes estúdios na hora de se fazer um filme, o que precisa ser cortado e em nome de quê. Encontramos Truman Capote, como escritor e figura legendária da alta sociedade americana, conhecemos um pouco da ascensão de Audrey, seu novo tipo de beleza e sua relação com a moda. Existe até uma simbologia por detrás do famoso vestidinho preto, que tinha conotações sexuais ao estar ligado à viuvez. Há também deliciosas fofocas de bastidores, como descobrir que Audrey preferia surgir nas primeiras cenas de Bonequinha chupando apenas um sorvete ou a dificuldade de criar Moon River, uma música feita especialmente para o alcance vocal limitado dela.

Cinéfilos adorarão. Fãs de Audrey, feministas, historiadores, jornalistas, curiosos em geral também.

Uma desistência – O mal de Montano

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Em fins do século 20, o jovem Montano, que acabava de publicar seu perigoso romance sobre o enigmático caso dos escritores que renunciam a escrever, foi apanhado nas redes de sua própria ficção, apesar de sua tendência compulsiva à escrita, e converteu-se num escritor totalmente bloqueado, paralisado, ágrafo trágico.

Em fins do século 20 – hoje, 15 de novembro de 2000, para ser mais preciso – , visitei-o em sua casa de Nantes e, tal como esperava, encontrei-o tão triste e tão seco que bem se poderia aplicar a Montano uns versos de Pushkin e dele dizer que “vive errando/ na penumbra dos bosques/ com o romance perigoso”.

O efeito positivo, no caso, é que para meu filho – porque Montano é meu filho – errar na penumbra dos bosques levou-o a recuperar uma certa paixão pela leitura, e disso me beneficiei eu, que não faz muito, e por sua recomendação, li Prosa da própria fronteira, o romance que acaba de publicar Julio Arward, este peculiar escritor em quem nunca me fiara demais, por considerar que ele simplesmente brincava de ser o duplo do romancista Justo Navarro.

p.13

Embora isso seja claramente uma idealização, gosto de pensar numa escrita que, de tão boa, não exija do leitor mais do que o básico. Não gosto da ideia de pré-requisitos, de que para enfrentar certas obras é preciso ter atrás de si obras fundamentais e uma intimidade de décadas com a escrita. É uma idealização, eu sei. Todas as formas de arte acabam criando seu público e apenas a repetição, o repertório e o conhecimento, tornam seus admiradores capazes de entender certas sutilezas. Mas gosto de pensar que o leitor mais experimentado é capaz de entender as sutilezas e as dificuldades de um grande romance, enquanto o leitor menos experimentado passará ao largo delas, mas sem deixar de se fascinar. Gosto de pensar no poder da escrita, no poder de assombrar e interessar mesmo aqueles que sabem pouco sobre ela.

Por isso, de cara, já não gostei da maneira como começa O Mal de Montano. Cheguei até a metade do livro apenas porque me obriguei, por querer conhecer um importante autor contemporâneo. Os primeiros parágrafos, acima transcritos, mostram: o livro começa com tantas citações que o leitor já se sente perdendo algo. Era uma festa privê para os muito cultos e ninguém me avisou? Para quem conhece todos os livros, autores e biografias citadas, deve ser interessante, uma festa; já eu senti que não faço parte do grupinho de amigos de Vila-Matas. A doença do mal de Montano é o mal do excesso de amor pela literatura, que leva a enxergar o mundo como uma grande narrativa, onde memória pessoal e de livros se misturam, e onde a vida está tão cheia de citações que a pessoa se torna um dicionário ambulante delas. Como proposta, achei interessante. Só que daí exigir que para gostar um livro o leitor precisa ser também muito aficionado em literatura, ter uma referência básica de autores e ter, também, certas pretensões como escritor, me parece um pouco demais.

Mesmo assim, vá lá, eu fui em frente. Gostei da primeira parte, da relação com Montano e seu bloqueio. Achei a segunda parte interessante, como um livro que explica a própria feitura do livro, contando os elementos que levaram o autor fictício da segunda parte a escrever a primeira parte. Só que o caminho percorrido se torna cada vez mais tedioso. Agora sou eu que declaro: que um autor exija dos seus leitores, que cite, que se referencie, que discorra, tudo é permitido. Mas que não seja chato. Podem me chamar de ignorante, podem me acusar de não ter apreciado um livro premiado de um autor famoso, podem dizer o que quiser – mas eu duvido que alguém seja capaz de se declarar apaixonado pelo livro. Ele não conquista, não emociona, não cria empatia. O narrador vai, volta, bebe, conversa com as pessoas, pensa, solta algumas baforadas sobre o ato de escrever. E nada disso fica, nada entusiasma. Quando me dei conta que não estava nem aí pra que direção a história tomaria, larguei mão. Meu mal de Montano me diz que todo livro precisa, no mínimo, despertar curiosidade sobre o seu final.

O avesso da vida

avesso da vidaGostei muito de O avesso da vida e acho que é possível gostar dele por dois motivos totalmente diferentes. E, de certa forma, me parece que o segundo motivo obscurece o primeiro. Em primeiro lugar, gosto dos temas que ele trata. A primeira coisa que é avessa da vida é a morte. O livro trata, logo nas primeiras páginas, disso. Henry, um dentista bem sucedido, trata de um problema coronário. A medicação para tratar desse problema o deixa impotente e a única maneira de se livrar desse terrível efeito colateral é uma operação arriscada.

Trazer tudo de volta, ele pensou, os anos 60, 50, 40 – trazer de volta aqueles verões na praia de Jersey, os pãezinhos frescos perfumando o armazém no porão do Hotel Lorraine, a praia onde de manhã os barcos vendiam peixe recém-apanhado… Ficou ali parado, naquele túnel, atrás do museu, relembrando sozinho as lembranças mais inocentes dos meses mais inocentes dos anos mais inocentes de sua vida, lembranças sem maiores consequências, extasiadamente revividas- tão grudadas nele quanto o sedimento orgânico que entupia as artérias do seu coração. O bangalô a duas quadras da praia, com a torneira para fora para tirar areia dos pés. A barraca de “adivinhe seu peso” na arcada do Parque Asbury. Sua mãe debruçada na janela quando começava a chuva, puxando as roupas penduradas no varal. Esperando, ao anoitecer, o ônibus para voltar para casa, depois do cinema de sábado à tarde. Sim, o homem a quem isto estava acontecendo tinha sido o menino que, com seu irmão mais velho, esperava o ônibus 14. Não era capaz de compreender – era a mesma coisa que tentar entender física molecular. Por outro lado, também não era capaz de acreditar que o homem a quem isto estava acontecendo era ele próprio e que, quaisquer que fossem as coisas pelas quais este homem tinha que passar, ele teria que passar também. Traga de volta o passado, o futuro, traga-me de volta o presente – eu só tenho trinta e nove anos!

p.13

Uma palavra que me vêm à cabeça quando penso nos muitos temas que o livro trata é que é um livro adulto. Por algo avesso à vida podemos pensar na morte de muitas coisas. Não é apenas a escolha entre uma morte física ou a morte da virilidade; vemos o problema da solidão inerente a todas as escolhas, da ausência de respostas fáceis, a dificuldade de elencar prioridades. O que é ser responsável, amar e conhecer, problemas tão típicos da vida adulta. Cada alternativa é debatida por muitos ângulos, todos muito coerentes ainda que opostos. Os personagens se debatem constantemente com o sentido da própria vida, do sofrimento, e com seu próprio passado. Fiquei encantada. Quem já leu Philip Roth pode ver como “mais do mesmo” as discussões sobre o judaísmo e a sexualidade; como leitora, procuro não cobrar que os autores se tornem maiores do que seus próprios temas e mudem radicalmente de um livro para o outro. Aceito como parte da bagagem de Roth. Com uma certa boa vontade, podemos ver na discussão sobre o judaísmo uma questão de herança e ancestralidade… mas que a maneira como ele coloca a questão parece alheia à realidade brasileira, isso parece.

Outra maneira de gostar do livro, que obscurece tudo que disse antes, é pela maestria com que ele foi escrito. Roth faz valer a pena tantas inovações e liberdades narrativas na literatura. Há tempos não lia um livro tão moderno, tão bem construído, que acredita tanto no seu leitor. O livro é construído num caleidoscópio; cada capítulo interfere no anterior e muda totalmente o que havíamos entendido. A história muda dentro da história. Principalmente: isso é feito com tamanha naturalidade como se não fosse nada, quando o leitor se dá conta, ele mudou também. É preciso muito domínio para se arriscar desse jeito e conseguir um bom resultado, sem adquirir aquele ar de “obra inacessível de puro experimentalismo”. Achei brilhante e maduro, um daqueles livros que, sozinhos, demonstram toda qualidade de um escritor.

Fotografia ou o fascínio da imagem, por Italo Calvino

amores dificeisQuando A aventura de um fotógrafo, do livro Os Amores Difíceis de Italo Calvino foi escrito, ainda era preciso revelar um filme para se obter uma foto. Quem viveu essa época sabe a distância enorme que é fotografar com filme, esperar para ver seu resultado e pagar por cada foto, do que vivemos hoje, com imagens fáceis e imediatas em qualquer aparelho. Isso causou um enorme impacto sobre o que é fotografar. Outro fenômeno, ainda mais recente, é o compartilhamento das fotos em redes sociais. Agora não é mais preciso sentar com um amigo e lhe mostrar suas fotos – as fotos dos outros nos chegam instantaneamente, independente da nossa vontade, através de links e atualizações de perfil. Das fotos raras, em preto e branco, que reuniam toda família para um único registro de toda uma vida, hoje vivemos uma overdose de fotos, onde até o almoço de alguém merece virar imagem e informação.

Por isso que esta citação me parece tão interessante. As fotos não estavam tão presentes e Italo já fazia esse tipo de análise sobre o impacto delas nas vidas das pessoas. É uma verdadeira profecia.

– Porque, uma vez que você começou – perorava -, não há nenhuma razão para parar. O passo entre a realidade que é fotografada na medida em que nos parece bonita e a realidade que nos parece bonita na medida em que foi fotografada é curtíssimo. Se você fotografa Pierluca enquanto ele está fazendo castelo de areia, não há razão para não fotografá-lo enquanto está chorando porque o castelo desmoronou, e depois enquanto a ama o consola fazendo-o encontrar no meio da areia uma casquinha de concha. É só você começar a dizer a respeito de alguma coisa: “Ah, que bonito, tinha era que tirar uma foto!”, e já está no terreno de quem pensa que tudo o que não é fotografado é perdido, que é como se não tivesse existido, e que então para viver de verdade é preciso fotografar o mais que se possa, e para fotografar o mais que se possa é preciso: ou viver de um modo o mais fotografável possível, ou então considerar fotografáveis todos os momentos da própria vida. O primeiro caminho leva à estupidez, o segundo à loucura.

A aventura de um fotógrafo, p.54

A REVOLUÇÃO VIRAL – Como um grupo cultural previamente tido como irrisório mudou a balança política do país da noite para o dia

Por Rafael Savastano

Tem sido impossível desgrudar da TV e da internet na última semana. E, por incrível que pareça, não é por causa da Copa das Confederações, que tem sido vendida como um ensaio geral para a Copa do Mundo de 2014. Ao contrário do que até o mais insano dos insanos poderia prever, os últimos dias viram a eclosão de um movimento político popular como o país não via há mais de 20 anos, bem no meio de uma edição de gala, em solo nacional, de um evento esportivo que o senso comum sempre ditou ser um grande alienador das massas. De lá para cá, tenho lido e assistido inúmeras análises, opiniões, palpites, até mesmo os bons e velhos “chutes” por parte de toda sorte de cientistas políticos, catedráticos, medalhões da mídia, etc. Tenho visto todas as esferas de poder, de todos os partidos, apavorados como se estivessem saindo do banho e encontrassem um urso feroz e faminto no meio do banheiro, no caminho da porta. Atordoados, eles tiveram que rever suas agendas políticas no susto sem nem ao menos entender como um urso daquele tamanho passou pela porta sem que eles notassem. A grande diversão da minha vida nos últimos dias tem sido imaginar o teor das reuniões de cúpula emergenciais que foram convocadas do Oiapoque ao Chuí. E mesmo agora, que a reivindicação inicial da turba foi atendida com um misto de contragosto e derrota pelos governantes das principais metrópoles do Brasil, ninguém ainda conseguiu entender a essência do movimento.

Bem, eu não sou cientista político, nem filósofo, e muito menos catedrático. Mas eu sou um integrante do que provavelmente foi o elemento chave que inverteu a ordem das coisas, um grupo cultural que até semana passada eu nem tinha real compreensão de que fazia parte, ou sequer que existia. Mas daqui de dentro, enxergo muitas peças que se encaixam perfeitamente e completam o quebra-cabeça que tem tirado o sono dos analistas políticos, e por isso acho que vale a pena tentar esclarecer e enriquecer o debate.

Para começar a explicação, vamos resgatar um termo que já saiu de moda, mas que curiosamente se encaixa melhor para explicar os eventos atuais do que qualquer jargão que surgiu desde então: Cibercultura. (….)

Leia o resto aqui.

O encontro do velho e do novo, por George R. R. Martin

got vol 3Chega de Game of Thrones, eu sei. É que esse trecho não diz respeito especialmente ao livro, à série. Os nomes e as os eventos citados são apenas ilustrações. Esta cena, que revela pouco ou quase nada da história, tem outra importância. Ela expressa o encontro do futuro e do passado, do que é e o que foi, o velho e o novo. Ela mostra o que acontece quando o mais experiente tenta dizer algo para o cheio de possibilidades. O mais velho se reconhece no mais novo, que se acredita o primeiro do mundo. De um lado, existe o incômodo e o desejo de provar alguma coisa; do outro, a arrogância de quem está apenas começando. Começos são tão belos, tão promissores… Já o fracasso é coisa de gente velha – ou nos envelhece, não sei. O diálogo entre jovens e velhos costuma ser tão desencontrado que esta cena me parece uma anedota que estamos condenados a repetir sempre, enquanto existir humanidade.

Esguio como uma espada, ágil e em forma, Sor Loras Tyrell usava uma túnica de linho branca como a neve e calções brancos de lã, com um cinto dourado em volta da cintura e uma rosa de ouro prendendo seu manto de seda fina. Os cabelos eram de um suave desarranjo castanho, e os olhos também eram castanhos, e brilhantes de insolência. Ele acredita que isso é um torneio e acabaram de anunciar sua justa.

– Dezessete anos e um cavaleiro da Guarda Real – disse Jaime – Deve se sentir orgulhoso. Príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão, tinha dezessete nos quando foi nomeado. Sabia disso?

– Sim, senhor.

– E sabia que eu tinha quinze?

– Isso também, senhor. – e sorriu.

Jaime odiou aquele sorriso.

– Eu era melhor do que você, Sor Loras. Era maior, mais forte e era mais rápido.

– E agora é mais velho – disse o rapaz. – Senhor.

Teve que rir. Isso é absurdo demais. Tyrion riria de mim sem dó se me ouvisse agora, comparando o pinto com esse rapazinho verde.

– Mais velho e mais sábio, Sor. Devia aprender comigo.

– Tal como você aprendeu com Sor Boros e Sor Meryn?

Aquela flecha se aproximou demais do alvo.

– Aprendi com Touro Branco e Barristan, o Ousado – disse bruscamente Jaime – Aprendi com Sor Arthur Dayne, a Espada da Manhã, que conseguiria matar vocês cinco com a mão esquerda enquanto mijava com a direita. Aprendi com o Príncipe Lewyn de Dorne com Sor Oswell Whent e Sor Jnothor Darry, todos eles homens bons.

– Todos eles homens mortos.

Ele sou eu, compreendeu Jaime subitamente. Estou falando comigo mesmo tal como eu era, cheio de uma arrogância convencida e de uma cavalaria sem base. Isso é o que acontece quando se é bom demais e novo demais.

Game of Thrones vol.3 p.690